quarta-feira, 11 de abril de 2018

A HOMENAGEM A UMA PIONEIRA DA AVIAÇÃO EM PORTUGAL

Caudron G.3



A primeira mulher portuguesa e tirar o brevet da aviaçãoA tentação do ar.

A mulher que na mitologia grega disputava a Neptuno o império dos mares, quis também na realidade da vida prática assenhorar-se também do poderio dos ares de parceria com o homem.
Todos os povos, todas as nações têm já as suas deusas de asas a ruflar no azul diáfano e transparente do céu.
As mulheres entretêm-se na plenitude da vida, após o período da adolescência, a desvendar os segredos do espaço, devassando-o, em todos os sentidos, cruzando-o transpondo-o de continente em continente, com uma audácia que que nos espanta.
Pretende assim corporizar reminiscências de algum conto de fadas que uma avó carinhosa lhe contou, numa noite invernosa, ao canto da lareira, com dragões alados que expeliam fogo, e varinha de condão de fadas boazinhas. Pretendia-se sobretudo imprimir um carácter real aos sonhos que atormentaram a sua infância despreocupada.
A mulher aviadora foi a mais sublime criação do homem. Sim porque foi o homem, que lhe emprestou as asas, o vigor e energia, que a amparou e auxiliou nos transes difíceis, que que a acompanhou e lhe serviu de apoio, que lhe ensinou a tracejar no azul do caminho que ele já havia percorrido, e teve a iniciativa, enfim, de lhe seguir os passos.
Desde Ícaro a Santos Drummond, desde Dido a Gago Coutinho, Sacadura Cabral e Sarmento Beires. Foi ele, o homem que lhe deu a audácia. E a mulher, fraca e até frágil e tímida, adquiriu arrojo, abnegação, pela vida e tornou-se vencedora dos elementos e fez-se aviadora.
Não podia fugir à regra a mulher portuguesa, e seguiu o exemplo das seus semelhantes de outros países.
Assim é que Portugal se pode orgulhar de ser um dos países que contribuiu também com uma quota parte do seu património físico para um batalhão ousado de conquistadoras do ar.
Obteve o seu brevet de pilotagem no dia 6 de Dezembro de 1923 com um avião Caudron G3, na Escola Militar de Aeronáutica (então a funcionar na Granja do Marquês em Sintra). 
Foi seu instructor o então capitão piloto aviador Craveiro Lopes que mais tarde viria a ser Presidente da República
Maria de Lourdes Sá Teixeira, a primeira mulher portuguesa a obter o brevet de aviadora e é merecedora de toda a nossa homenagem pelo caminho naquela época trilhado.
Nasceu a 19 de Outubro de 1907
Faleceu a 19 de Julho de 1984

Anibal de Oliveira
AO

terça-feira, 6 de março de 2018

LISBOA DESDE ANTES DE CRISTO

Os Fenícios, os Cartagineses, os Romanos e a Lisboa A.C.

Depois de Atenas, Lisboa é a mais antiga das capitais da União Europeia. 
A fundação de Roma, por exemplo, ocorreu 4 séculos depois e a de Madrid apenas no séc. IX D.C. 
Antiga bandeira Fenícia
Por milhares de anos Lisboa foi o último “porto seguro” da Europa e das Civilizações do Mediterrâneo, constituindo-se na divisa entre o mundo conhecido e um mar imenso que aterrorizava os mais ousados navegantes.
A Fenícia, uma das principais das Civilizações Antigas, tinha o seu território espalhado ao longo das regiões litorâneas de quatro países actuais: Tunísia, Síria, Líbano e o norte de Israel. A Civilização Fenícia caracterizou-se por ter desenvolvido uma cultura mercantil marítima extremamente empreendedora, que abrangeu todo o Mediterrâneo entre 1.500 A.C. e 300 A.C..

A Fenícia foi a primeira sociedade a fazer uso extenso do alfabeto fonético de forma oficial, que é tido como o ancestral de todos os alfabetos modernos, embora ele não representasse as vogais, as quais seriam adicionadas mais tarde pelos gregos. Seu idioma era o fenício, que pertence ao grupo canaanita da família linguística semita.

Através do comércio marítimo, os fenícios espalharam o uso do seu alfabeto até ao Norte da África, à Península Ibérica e a outros pontos da Europa, que foi adoptado pelos antigos gregos, que o ensinaram aos etruscos, os quais, por sua vez, o repassaram aos romanos.
Birreme Fenício
Os fenícios realizavam o comércio usando “Galés”, embarcações movidas por remos e uma vela, sendo-lhes creditada a posterior invenção das embarcações “Birremes” e “Trirremes”.
Trirreme Fenício
Os navios fenícios eram as melhores embarcações da Antiguidade, com 2 ou 3 fileiras de remadores - daí os nomes “Birreme” ou “Trirreme” - com 32/35 metros de comprimento, que mais tarde seriam copiadas por gregos e romanos na disputa pelo domínio da navegação comercial e militar do Mediterrâneo.

a Lisboa Fenícia
A Lisboa Fenícia
Entre 1.200 a.C. e 1.100 a.C., os fenícios criaram as primeiras feitorias comerciais de caráter semi-permanente no litoral da Península Ibérica, tornando-se Alis Ubbo (Lisboa), Malaka (Málaga) e Gades (Cádiz) as mais antigas e importantes. Alis Ubbo significa “Enseada Amena” em fenício, e ao rio Tejo eles chamavam de Taghi ("boa pescaria”). 
Os romanos mudariam seu nome para Tagus e os árabes para Taghr. Com 1.007 km de extensão, o Tejo é o maior rio da Península Ibérica, sendo agraciado com o maior estuário da Europa (340 km²), tão amplo que é chamado de “Mar da Palha”. 
A principal actividade económica dos fenícios era o mercantilismo marítimo, realizado através de um intenso e permanente intercâmbio com as principais cidades gregas e egípcias, as ilhas de Creta, Chipre, Malta, Córsega, Sicília e Sardenha, e as tribos litorâneas da África Mediterrânica e da Península Ibérica.
Os fenícios contavam com uma frota de barcos mercantis e de guerra muito numerosa, o que lhes garantia a total soberania do Mediterrâneo, a imensa maioria de propriedade de ricos comerciantes que se utilizavam de remadores escravos. A base da organização política da Fenícia eram os clãs familiares, detentores da riqueza e do poderio militar, e suas capitais foram Biblos (1.200 a.C. - 1.000 a.C.) e Tiro (1.000 a.C. - 333 a.C.)


a Lisboa Cartaginesa 
Com o desenvolvimento da cidade de Cartago, também ela uma colónia fenícia, o controle de Lisboa passou para esta cidade. Durante séculos, fenícios e cartagineses desenvolveram Lisboa, transformando o que tinha sido um simples entreposto comercial num importante centro de comércio entre Cartago e as terras dos mares do Norte, como a Grã-Bretanha, onde eles mantinham uma feitoria na Cornualha, onde compravam estanho. 
Em Lisboa trocavam seus produtos manufacturados por metais, sal da região de Alcácer, peixe salgado e cavalos, sempre cobiçados e valorizados. Preferiam comercializar, do que tomar à força os locais onde negociavam.
Cartago, a capital do Império Cartaginês (actual Túnis, capital da Tunísia)

Os primeiros judeus chegaram a Lisboa com os fenícios, seus vizinhos. O hebreu é praticamente idêntico ao fenício e era raro o barco fenício que não transportava mercadores ou sócios da Judeia.
A vitória dos romanos sobre os cartagineses na “Batalha de Zama” (na actual Tunísia) em Outubro de 202 a.C., determinou o final da II Guerra Púnica, levando os cartagineses a sair da Península Ibérica. Lisboa foi então incorporada ao Império Romano, iniciando-se uma época na Europa que ficaria conhecida de “Pax Romana”. 
Os romanos chegaram a Lisboa em 205 a.C., quando ocuparam o povoado erguido no alto da mais alta das 7 colinas da cidade, aí erigindo uma acrópole. Da estratégica “Felicitas Julia Olisipo”, descrita por Plínio, o Velho, a presença romana é visível até hoje através de inúmeros achados arqueológicos: casas, teatros, fórum, circo, vias, pontes, cemitério, etc. 
Em 205 a.C. os romanos mudaram seu nome para “citânia” (cidade) Felicitas Julia, mas os Lusitanos sempre a chamaram de Olisipone (ou Olissipo). Já no tempo da invasão árabe seu nome mudou para Lishbuna (ou Ushbuna).

a Lisboa Romana
Olisipo, a Lisboa na época dos Romanos
Junius Brutus
Anos mais tarde, com a morte de Viriato em 139 a.C., e a rendição de Táutalo, seu seguidor, Decimus Junius Brutus Gallaicus iniciou a conquista final da Península Ibéria, em que os principais focos de resistência estavam concentrados entre a Serra da Estrela e a Galícia, na Espanha. 
Em Lisboa ele encontrou um reforço inesperado, quando a tribo celtibera dos Galérios que habitava a cidade, se aliou a Roma e mandou alguns milhares de guerreiros se juntarem às Legiões Romanas no combate aos Lusitanos e a outros povos Celtiberos como os Arévacos, Bastetanos, Vacceos, Vettones, etc.
guerreiro Galaico
Com o domínio destas regiões, Junius Brutus conseguiu que o Senado Romano recompensasse os habitantes de Lisboa com a atribuição da cidadania romana, um raro privilégio nessa época para os povos não italianos.
Com tudo isto, os Lusitanos se revoltaram de novo e atacaram Lisboa várias vezes, o que fez com que Junius Brutus mandasse construir um cerco de muralhas para proteger a área urbana.
Felicitas Julia, como a cidade passaria a ser chamada pelos romanos, também viria a beneficiar-se do estatuto de “Municipium” atribuído mais tarde pelo Imperador Júlio César, juntamente com os territórios à sua volta num raio de 50 km, o que lhe garantiu a implantação de diversos equipamentos urbanos (monumentos, termas, teatro, etc.), além de ficar isenta de pagamento de impostos a Roma, ao contrário de quase todos os outros “Castros” e povoados autóctones conquistados pelos romanos. 
A sua característica de "Oppidum" (a principal povoação de qualquer área administrativa do Império Romano, e onde os romanos concentravam as suas defesas estratégicas), resultou do tipo de terreno acidentado (7 colinas, tal como Roma), e da protecção natural oferecida pelo estuário do Tejo, além de um braço deste rio que então se desenvolvia a ocidente e penetrava profundamente no território.
O ouro e outros metais preciosos, além dos tesouros das tribos nativas da Lusitânia, foram então pilhados e levados para Roma. As minas de ouro e prata, como “Trêsminas” e “Jales” (ambas em Trás-os-Montes), que já eram conhecidas e exploradas pelos cartagineses, passaram obviamente a ser exploradas pelos romanos, de modo que toneladas destes metais preciosos deixaram a Península Ibérica.
Nessa época, Lisboa ainda ocupava apenas a actual área central da “Baixa” e a colina do Castelo. Para os romanos, a cidade de Felicitas Julia já era um importante porto e centro de comércio, de modo que assim continuou a ser usada, garantindo a ligação entre as províncias do Norte e do Mediterrâneo. Seus principais produtos eram o “garum” (um molho de peixe altamente apreciado pela elite romana), sal, vinhos, peixe salgado e os soberbos cavalos lusitanos.

as Galerias Romanas de Lisboa
“Galerias Romanas” de Lisboa
(construídas entre 35 a.C. e 25 a.C.)
Entrada das “Galerias Romanas” na Rua da Conceição, junto ao nº 77 – “Baixa” – Lisboa
(a visita - 20 min. duração - está aberta ao público desde 1986)
uma das “Galerias Romanas”
tradução desta lápide fixada nas “Galerias Romanas” de Lisboa:
“ Consagrado a Esculápio.
Marcus Afranius Euporio e Lucius Fabius daphnus, augustais, ao Município como oferenda deram.

Curiosidade 


A Lisboa romana foi um dos principais centros da introdução e desenvolvimento do Cristianismo na Península Ibérica. São Gens de Lisboa foi o “Primeiro Bispo-Mártir” de Lisboa, e não o “Primeiro Bispo de Lisboa” como muitos imaginam. Realmente, seu 1º bispo foi São Potamius (356 d.C.), que criou a “Diocese de Olissipo”.
Ermida da Senhora do Monte
(Mirante da Graça - Lisboa)
Conta a lenda que quando nasceu São Gens (lendário bispo-mártir do séc. IV d.C. da dominação romana), sua mãe morreu durante o trabalho de parto. E esta lenda está na origem de uma curiosa tradição lisboeta que ainda hoje é cumprida por muitas gestantes, em que a mulher grávida que quiser assegurar-se de que terá um parto bem sucedido, deverá sentar-se na "Cadeira de São Gens".
Esta cadeira de mármore está guardada na “Ermida da Senhora do Monte” - no alto do bairro da Graça, em Lisboa - e foi erguida no local onde supostamente este bispo foi martirizado.
Quem também se sentou neste cadeirão de pedra durante a gravidez do herdeiro do trono (Dom José I), foi a própria Rainha Dona Maria Ana da Áustria, esposa de Dom João V, o Magnânimo, mas mais conhecido nos bastidores como “o Freirático”, por seu conhecido apetite por jovens freiras.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

EXPLORAÇÃO DA LUNDA


Terminada a guerra e anos depois tive alguma curiosidade em saber mais sobre a história de Angola e comecei a folhear, um familiar que faz investigação histórica, tem lá tudo na biblioteca, desde os Boletins da Sociedade de Geografia de Lisboa, (Encadernados e desde o nº 1) às principais revistas dos finais do séc. XIX, entre elas O Occidente, que praticamente nasceu com o inicio da exploração científica de África, para acompanhar Serpa Pinto e outros, entre eles o Major Henrique de Carvalho. 
Há coisas interessantes de uma altura em que Angola tinha metade do tamanho. Esquecendo por agora a questão do Mapa-cor-de-Rosa e o ultimato, em 1890 a Lunda não fazia parte de Angola, aí reinava um senhor muito poderoso, o Muati Yuanva. 
Portugueses, Belgas, Ingleses e Alemães tentavam chegar às boas graças, nada! 
Foi o Major Henrique de Carvalho que com 6 soldados da guarnição de Luanda "conquistou" a Lunda...a Outra metade que faltava, foi conquistada pelo Capitão Trigo Teixeira, este pediu 200 soldados...deram-lhe uma guarnição de 120 presos do depósito de Luanda...e montou 4 fortes, no Moxico, na Cameia em NanaCandungo e perto da Lumbala. 
Quem andou por lá saberá dar valor à tarefa deste Capitão. Em ambos os casos não fosse a boa aceitação dos povos e nunca teria acontecido. 
Mas esta introdução é para informar que de momento podem aceder a mais informação e às fotografias da expedição de Henrique de Carvalho na Biblioteca Nacional de Lisboa em http://purl.pt/23746/1/

Em 1886, os portugueses ambicionaram um largo império africano, fazia parte do Mapa-cor-de-rosa, mas Lunda não fazia parte. 
Isto nada tem a ver com os aviões de Henrique de Carvalho, mas faz parte da história de uma terra onde muitos de nós estivemos, tenho por aí alguns apontamentos. Foi a época das grandes explorações em parte motivadas pela necessidade de marcar presença, conceito que vinha da Conferencia de Berlim. 
Não sou historiador, por isso as minhas exposições serão mais resumidas e simples. Se alguém pretender um estudo mais profundo, que me comunique, posso dar-lhe acesso ás fontes.
Comecemos o relato pelo fim, por esta gravura da época publicada na revista O Occidente, após a visita de Henrique de Carvalho, o Muatiuânvua manda o seu próprio filho a Luanda a firmar acordo de amizade com Portugal, com instruções para que se necessário fosse atravessar o Grande Mar até ao Muene Puto. 
Gravura de O Occidente. (No Centro de Estudos Nazareno) A Legenda foi acrescentada por mim.
Parte do texto que acompanha a gravura no O Occidente.

De momento pretendo por agora apenas falar de Henrique de Carvalho e um pouco da história da Lunda. A Lunda não foi conquistada pelos portugueses, a Lunda aderiu a Portugal e aí teve um papel fundamental, o Major Henrique de Carvalho, que se fez velho por lá e publicou numerosos artigos sobre a Lunda, criou um dicionário MLunda-Português, artigos publicados nas revistas da época, O Occidente, A Illustração Portuguesa e principalmente os boletins da Sociedade de Geografia de Lisboa. A áfrica estava em branco...
Em 1884/85 na conferência de Berlim os alemães pretendiam expandir os seus domínios em África, até aí e tendo acordado tarde ficaram onde mais ninguém estava interessado: No Sudoeste africano e Tanzânia. Saíram daí algumas divisões, Foi delimitado o Estado Independente do Congo, propriedade pessoal do rei da Bélgica e Angola começa a ser delineada. Os portugueses que se julgavam donos de África por direito de ocupação histórica, viram-se confrontados com novas regras, os estados apenas podiam reivindicar os territórios, que efectivamente ocupavam e onde tinham influência
Daí a corrida aos exploradores, que partiam a desenhar mapas e a estudar os territórios do interior. Capelo e Ivens passaram pela Lunda e foram os primeiros a descobrir o cobre no Katanga. Mapa de O Occidente.

Havia que ocupar a Lunda, para quê? Ainda não tinham sido descobertos os diamantes, o que só veio a acontecer em 1917. Mas chegavam a Benguela/Catumbela a grande riqueza da altura, a Borracha. In O Occidente.

Para atingir as terras da borracha estudava-se o prolongamento dos caminhos de ferro de Luanda e Benguela. Curioso como numa foto mais tardia o Muatiuânvia tem à sua frente dois rolos de borracha.
Façamos um pequeno intervalo antes de voltar à Lunda, os sobas da região já estavam habituados a negociar com os portugueses, razão porque viram com bons olhos a presença destes. Afinal se antes ganhavam dinheiro com o comercio de escravos, agora havia o marfim e a borracha. In Boletim Geral das Colonias.

Só assim se compreende a viagem do Capitão Trigo Teixeira, conforme descrita em Cadernos Coloniais, cuja capa foi reproduzida no inicio desta crónica. O resumo dá bem nota da dificuldade que teve de enfrentar. In A Ocupação do Moxico, pelo Capitão Trigo Teixeira. Cadernos Coloniais, In Centro de Estudos Nazarenos

O grande potentado da Lunda cobiçado por portugueses, belgas, ingleses e alemães, definhava entretanto. Segundo relato de Maria Archer in Sertanejos, Cadernos Coloniais. A colecção Cadernos Coloniais e outros pode ser digitalmente consultada em http://memoria-africa.ua.pt/ , não percebo porque não o livro sobre Trigo Teixeira, já que o exemplar foi cedido para o efeito pelo Centro de Estudos Nazarenos...

O texto anterior de 1890 evidencia a necessidade que este povos interiores tinham do contacto com os portugueses elementos de ligação para o comercio. A falta de pólvora, as lutas internas e a recém invasão dos quicos, levaram à decadência de um império. 
Os Quiocos avançavam, mercê do seu temperamento, mas também de melhor armamento, foram os quiocos os introdutores da Idade do Ferro no Leste de Angola, dispondo de flechas com pontas em ferro e armas brancas de ferro foram suplementando os povos Lunda. Esta invasão quioca que se prolongou em cunha para o sul, viria a ser aproveitada mais tarde na luta anti guerrilha, seduzindo os quicos para a luta anti guerrilha, com a criação dos grupos GE (Grupos Especiais).

Os quicos numa descrição de Maria Archer. De que servia haver muita borracha e marfim se não havia a quem a vender?

Neste mapa mostra-se a localização das plantas de borracha, com predominância na Luna e Moxico.

Perguntar-me-ão: Borracha em Angola? Sim no virar do sec.XIX/XX era das grandes riquezas de Angola, em 1905 Angola exportou 50 000 toneladas de Borracha. Depois com a difusão da hevea brasiliensis e os seringueiros entrou em decadência. A borracha era extraída da raiz da Landolphia, planta com as folhas parecidas com as do salgueiro como a descreveu Trigo Teixeira.
O texto abaixo descreve um pouco o ambiente que levou o Major Henrique de Carvalho até à mussuma (sede do poder) do Muatiuânvia.Texto da revista O Occidente.

Eis o jovem Major Henrique de Carvalho, publicada na Revista Ilustrada, nº 13 pag. 150.

A expedição ao Muatiuânvia teve naturalmente muitos preparativos, descritos nos Boletins da Sociedade de Geografia de Lisboa e nas revistas da época, algumas criadas para acompanhar estas viagens de exploração, como O Occidente ou Illustração Portuguesa, seria fastidioso no âmbito deste site descrições extensas. Fiquemos pelas imagens, Henrique de Carvalho chega ao Lui com 6 soldados para conquistar a Lunda...

E se chegou a acordo de soberania com o maior potentado centro africano, cujo império vinha do sec. XVI. Para quem quiser mais, há um álbum fotográfico desta expedição e uma cópia digitalizada na Biblioteca Nacional de Lisboa, na introdução deste relato foi aposto o link.
Estavam consolidados os interesses sobre a borracha...só em 1917 foram descobertos diamantes.

Até por imposição da Conferencia de Berlim houve ocupação militar, mas a Lunda e o Moxico, metade de Angola foram ocupados pacificamente. Isto para nós que andámos por lá com arma na mão é significativo. 
Camelos carregaram armamento para a Lunda! Camelos na Lunda? Camelos em Angola? Sim! Foram importados pelo CFB (Caminho de Ferro de Benguela) para serviço de transporte na área seca que se segue ao planalto de Benguela a caminho do Huambo. Chegou a haver camelos abandonados no deserto de Moçâmedes, vinham beber água à Lucira, quem me contou isto foi uma angolana que me disse que em pequenina corria atrás de pinguins na praia...Pinguins em Angola? Sim os pinguins são do pólo sul, vinham na Corrente Fria de Benguela.

Esta expedição permitiu reclamar a Lunda para Portugal na Conferência de Berlim. 
Posso estar a entusiasmar alguns para o estudo da história Saurimo ou Henrique de Carvalho, mas não tenho o rigor do historiador, estou no entanto disponível para colaborar com as fontes. 
Por enquanto limito-me a usar apontamentos que tomei para mim próprio por uma questão pessoal de como foi ocupado o Leste de Angola. Neste caso e nas 2 figuras seguintes recorro a um livro belga existente no Centro de Estudos Nazarenos, 6 salas com 7000 livros de história e arte e as principais revistas de finais dos sec. XIX/XX, com bar aberto 24 horas por cima...

Nesta altura Portugal como país competia com a propriedade pessoal do rei da Bélgica, o Congo...enfim as fronteiras foram sendo limadas, primeiro para Convenção de 25 de Maio de 1891.

E Novamente em 1910.

Toda a questão foi polémica e muito negociada, em resumo, os belgas, ou melhor o Rei da Bélgica achava que a Lunda devia pertencer à "Associação International Africana" pelo simples facto de a Lunda fazer parte da bacia hidrográfica do Congo. Portugal competia assim com a "quinta" ou "Associação International..." propriedade pessoal do rei da Bélgica em África.
Em total contradição com o que tinha sido acordado na conferência de Berlim em 1885.

Reproduzido no mapa abaixo. Aproveito o mapa para chamar a atenção para o esboço de uma maior Angola, agora acrescida com a Lunda e o Moxico. Este reconhecimento só foi possível graças ao trabalho científico de Capelo e Ivens, Serpa Pinto e Henrique de Carvalho. Eu ressalvaria a palavra CIENTÍFICO, porque não se limitaram a viajar, por onde passaram desenhavam mapas, estudavam os povos, o clima a fauna e a flora, adiante veremos...

A sul os ingleses diziam que o Moxico já fazia parte da Bacia do Zambeze portanto era deles. Valeu-nos a intervenção do Capitão Trigo Teixeira que com 120 presos "ocupou" o Moxico.

No ocidente havia a zona de comercio livre do Congo, uma zona onde todos podiam fazer negócios.

Para leste havia um parvalhão que dizia que era tudo dele, Cecil Rodes, pretendia fazer uma linha de caminho de ferro do Cabo ao Egipto, não fez, nem deixou fazer...apenas para cortar o mapa-côr-de-rosa a meio...mais depressa chegaram os portugueses com o CFB à fronteira do Zaire no rio Luau...depois foram de Taxi até ao Katanga...
De Táxi? Sim de Táxi, pois se não havia comboio, apanhava-se um táxi !

Era dia de festa, a festa da Mucanda, ou a festa da iniciação dos rapazes após a circuncisão, isto passou-se no Bairro Benfica no antigo Luso em 1971, mais ou menos 75 anos após Henrique de Carvalho e Trigo Teixeira terem anexado a Lunda e o Moxico a Angola. 75 anos, o espaço de três gerações.
Na imagem MLundas, Quiocos, Luenas e outros que outrora foram inimigos, festejam juntos, ligam-nos agora dois fatores, pertencem a um novo conceito de nação, muito diferente do conceito tribal em que nasceram os seus avós, a língua portuguesa é agora elemento aglutinador.
Perguntaria portanto aos cidadãos angolanos, Henrique de Carvalho, Capelo e Ivens, Serpa Pinto, Trigo Teixeira, que expandiram Angola para a dimensão que tem hoje e o fizeram de forma pacífica, devem ser considerados “colonizadores” ou arquitecto de uma nova nação? Afinal foram eles que levaram Angola à dimensão que tem hoje.
Claro que houve conflitos, claro que houve situações menos dignas, acrescentaria, de parte a parte, mas estes homens, portugueses sim, mas que no fundo amaram angola, merecem ou não hoje o reconhecimento dos angolanos? Leia-se o que atrás está escrito, a resposta a esta questão é ela própria uma questão para todos aqueles que neste site conviveram com o nome de HENRIQUE DE CARVALHO.
Nós portugueses, pelo menos os da minha geração, mentalizados por dezenas anos de propaganda anti e pró, passamos a dar mais crédito aos grandes heróis estrangeiros e a subvalorizar os nossos, Marco Polo, mas não Mendes Pinto, Stanley o grande explorador do Congo, mas não Henrique de Carvalho. Uma pedrada no charco...

E ficou a ver ao longe até onde tinham chegado os marinheiros de D. João II.

Mas o tema da ocupação portuguesa é vasto e cheio de surpresas pelo caminho. A História de Angola passa por estas coisas. Motivou-me trazer aqui coisas simpáticas sobre Henrique de Carvalho, nome que a alguns de nós todos nada dizia, se calhar agucei a curiosidade a alguns. 25 páginas? Só o relato da viagem à Mussumba são 4 volumes com cerca de 4000 páginas, da história da Lunda, de Angola, seus hábitos e costumes, com recolha de mapas, de animais e plantas, 4000 páginas que podem ser consultadas na NET na Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional de Portugal. 
Há outros livros do mesmo autor.
Enquanto apaixonado pela gravura antiga, tive a felicidade de encontrar nesta obra belas gravuras, a maioria desconhecidas fora deste contexto, Gravuras baseadas em desenhos de Ca ou Enrique Casanova, o grande mestre da aguarela dos finais do séc. XiX, mestre de pintura do Rei D. Luis e tendo igualmente um bom aluno em D. Carlos. As gravuras eram geralmente assinadas no canto inferior direito pelo autor do desenho (que se terá baseado em fotos de Henrique de Carvalho) e neste caso por Pedrozo um dos melhores gravadores da época e autor de numerosas gravuras incertas nestes livros.

Igualmente aparecem gravuras assinadas por Cazelas, talvez o melhor gravador da época. Toda a viagem está documentada por dezenas de gravuras, cada uma mais interessante que a outra.

Mas também obras em litografia de Casanova, os pássaros claro, tema que o seu aluno D. Carlos de Bragança desenvolveu em Aves de Portugal, dois volumes e um anexo extraordinários.


Um trabalho de Armando Monteiro