terça-feira, 10 de outubro de 2017

JORGE DE SOUSA GORGULHO

Nascido em Lisboa a 30 de Novembro de 1894, frequentou o Colégio Militar e ingressou posteriormente na Escola de Guerra, onde se especializou em Cavalaria. Ainda enquanto alferes de cavalaria ingressa, por sua vontade, no serviço de Aviação Militar. Fez assim parte do primeiro curso da Escola Aeronáutica Militar, que teve lugar em Vila Nova da Rainha tendo a par de Sarmento Beires recebido o seu diploma de piloto a 10 de maio de 1917 . O seu primeiro voo teve lugar a 16 de Outubro de 1916 que foi o mesmo dia em que iniciou a sua instrução de pilotagem.
Ofereceu-se para fazer parte da Esquadrilha Expedicionária a Moçambique, embarcando no vapor Moçambique em Julho de 1917 e desembarcando naquela colónia, em Mocímboa da Praia, a 3 de Agosto desse ano. 
A 7 de Setembro foi o primeiro português a efectuar um voo em terras africanas. Contudo, no dia seguinte, o Farman F40 que pilotava caiu e incendiou-se, provocando a sua morte prematura, morrendo cinco horas depois da queda, sendo assim o primeiro piloto português a morrer em território africano.


Colaboração de Madiba P. Moreira

terça-feira, 3 de outubro de 2017

MANUEL ANTÓNIO GOUVEIA

Oficial Mecânico e Piloto Aviador. 
Alistou-se em 1912 na Engenharia Militar. 
Em 1917 parte para França integrado no C.E.P. (Corpo Expedicionário Português). Durante a sua estadia em França ingressa nos Serviços de Aviação do C.E.P., e frequenta a Escola de Mecânica de Saint Cyr e mais tarde a Fábrica Gnome-Rhone, e a Hispano-Suisse em Biaclomb. Após os cursos trabalha como mecânico na Esquadrilha 124, equipada com aviões “Spad”, tendo em 1918 feitoparte da referida esquadrilha que se bateu no Marne. 

Preparou e deu assistência ao Breguet que efectuou os voos recorde Paris-Bruxelas-Amesterdão e Paris-Lisboa em 1920 e
participou na viagem aérea do Pátria, que ligou Lisboa a Macau, em 1924, e contribuiu para o êxito do voo nocturno do Argos sobre o Atlântico Sul (Lisboa-Rio de Janeiro-Pará) em 1927 onde durante o referido voo teve de intervir no funcionamento de um dos motores. Em reconhecimento do seu valor excepcional e abnegada dedicação ao serviço, pôde tornar-se oficial piloto sendo promovido a tenente em 1928 e em 1935, tomou parte no cruzeiro aéreo ao ultramar. Foi distinguido com os graus de Cavaleiro e Oficial da Torre e Espada.

Colaboração de Madiba P. Moreira

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O ESTABELECIMENTO DOS PORTUGUESES EM MACAU


46 anos de negociações por Macau

 Gravura de Macau entre 1616-1670 de Johannes Vingboons       
Foi após a chegada dos Portugueses à India que ouvimos falar pela primeira vez dos “Chins”- a gente branca, sem barba, de cabelos compridos- cujas embarcações bem armadas surgiam de vez em quando nas regiões do Sudoeste asiático. Nem nós nem os nossos informadores fazíamos ideia de quem eles eram nem de onde vinham. Apenas sabíamos que essa gente era geralmente designada por “Chin”.
Esta é a origem do nome da «China», que os Portugueses deram ao país dessa remota e estranha gente, quando ali chegaram- nome que, adoptado depois por outros povos e até pelos próprios Chineses passou a designar oficialmente a sua pátria na terminologia ocidental.
Comunicada esta valiosa informação a Manuel I, o seu interesse foi tal que sem mais detenças, despacha em 1508 (isto é 10 anos depois da nossa chegada à India) uma frota comandada por Diogo Lopes de Sequeira, para fazer descobrimentos na região situada entre a ilha de Lourenço (Madagáscar) e Malaca, encarregando-o expressamente da aventurosa missão da colheita de informações concretas sobre os Chineses, seu país, comércio religião etc. Perguntareis pelos Chins, e de que parte vêm e de quão longe.
Afonso de Albuquerque foi, porém, o primeiro português a estabelecer relações de amizade com os Chineses. Chegado a Malaca com uma frota em 1511, o hábil capitão trata com deferência os cinco juncos chineses ali detidos e aceita o seu oferecimento de nos auxiliar nas operações de desembarque.
Conquistada a cidade, Albuquerque manda dar-lhes todos os mantimentos necessários para a viagem de regresso à China e faz-lhes mercê de alguns presentes adrede trazidos de Portugal.
Chegados à pátria, os Chineses transmitem às autoridades as primeiras notícias sobre os Portugueses-altamente lisonjeiras do nosso caracter e valentia.
Dois anos depois, em 1513, Rui de Brito Patalim, primeiro capitão português de Malaca, despacha em missão exploratória um junco à China, levando como feitor Jorge Alvares, um dos capitães da frota de Albuquerque.
Aportado a Tamão (outrora conhecida por ilha da Veniaga e presentemente por Lin-Tin), na foz do rio Cantão, local destinado pelas autoridades chinesas para a navegação do estrangeiro, Jorge Alvares ali permanece uns meses em observação e estudo.
Assim data de 1513 a nossa chegada `China, cabendo a Jorge Alvares a honra de ser o primeiro português a pisar o solo do Celeste Império, que ela assinala gloriosamente com um padrão e tragicamente com a sepultura do seu filho, junto de quem ele próprio viria a ser enterrado em 1521, quando ali faleceu durante a sua quarta viagem à China.
Foi certamente baseado nas informações de Jorge Alvares que o boticário e naturalista Tomé Pires apresenta, na sua «Suma Oriental», a primeira relação minuciosa da China e dos Chineses, sendo ao mesmo tempo o primeiro a identificar o país com o lendário Cataio, e a sua capital, Pequim, como Cambuluc, -tornadas celebres na Europa pelas descrições de Marco Polo.
Em 1515, um grupo de mercadores portugueses, chefiados por Rafael Perestrelo, italiano ao serviço de Portugal, foi encarregado pelo governador de Malaca, Jorge de Albuquerque, irmão de Afonso, de empreender nova incursão de caracter predominantemente comercial, à China- missão que foi coroada com o melhor êxito.
Na mesma data (1515) sai de Lisboa a primeira frota destinada a abrir oficialmente as relações diplomáticas e comerciais com os Chineses. Comandava-a Fernão Peres de Andrade, já com o título de Capitão -Mor da Viagem da China, e conduz uma embaixada com carta e presentes de D. Manuel para o «Rei da China».

Após demoras na India e em Malaca, a frota chega a Tamão em 15 de Agosto de 1517 e segue para Cantão, onde desembarca o referido Tomé Pires, feito agora embaixador, com luzido séquito.
A parte comercial e marítima desta missão é desempenhada por Fernão Peres com muita facilidade, pois além de proveitosas transacções de mercadorias consegue despachar um o seu capitão para fazer reconhecimentos na costa chinesa até Chincheo, em demanda de novas ilhas de Liu-Kiu (a a ctual Formosa).A parte diplomática, porém malogra-se por completo. A embaixada de Tomé Pires, só em Janeiro de 1520 é autorizada a seguir para Pequim, onde é recebida com simpatia pelo imperador Wu-Tsung, mas a prematura morte deste e os conflitos e mal-entendidos que entretanto surgem com as autoridades da Corte deitam tudo a perder.

Numa irrupção de xenofobia, a corte imperial ordena a retirada de todos os estrangeiros do seu solo, suspende o comercio com o exterior e fecha o porto de Cantão à navegação estrangeira. A situação agrava-se ainda mais com a chegada a Tamão de nova frota portuguesa, comandada por Martim Afonso de Melo e Coutinho, que embora encarregada de fazer um tratado de paz, amizade e comércio com o imperador da China, é recebida hostilmente, sendo obrigado a retirar-se com pesadas perdas. Esta rotura nas relações oficiais sino-portuguesas dura até 1554.Contudo nunca os portugueses deixaram de frequentar regularmente a China durante todo este período. Pelo contrário, deu-se um activo recrudescimento do trafego ilegal ou contrabandista dos Portugueses através de certas ilhas e portos do litoral, mais a Norte., nas províncias de Fukien e Chekkang com activa colaboração de mercadores chineses e cumplicidade das respectivas autoridades locais, a ponto de termos conseguido estabelecer algumas feitorias como Chanchieo e Liamo ou Ningo.

Em 1542, os Portugueses descobrem os Japão. Este facto, ao mesmo tempo que nos vem abrir um novo e importante mercado, agrava extraordinariamente o problema das nossas extensas e desprotegidas comunicações marítimas.
Tendo-se apercebido imediatamente de que entre a China e o Japão não havia qualquer trafego marítimo ou comercial (não só porque os Chineses estavam proibidos, sob pena de morte de sair do país, como também porque os dois países orientais estavam separados por graves conflitos e actos de pirataria reciproca) os Portugueses depressa se encarregam do lucrativo comercio sino-nipónico, na dupla qualidade de mercadores e transportadores.
As nossas toleradas ou clandestinas feitorias de Chancheo e Liampo adquirem por isso invulgar animação e importância, de tal forma que a Corte de Pequim se vê forçada a intervir, expulsando-nos dali em 1548.

Compelidos a abandonar as vantajosas posições no Norte, dirigimos novamente a atenção para Sul, para a região de Cantão (de onde fôramos expulsos em 1522), sabendo-se que a partir de 1524 (datando descobrimento do Japão) as nossas principais naus principiam a frequentar a ilha de Lampacao, no estuário do Rio das Pérolas, que servia de entreposto ao comércio de contrabandistas de Cantão.
Reconhecendo por experiencia própria, que o comércio com os Portugueses, longe de prejudicar, só trazia vantagens para a sua vida económica e financeira, pois que para além das receitas para o erário publico, provindas dos direitos, regularizava o mercado interno com o fornecimento de artigos estrangeiros essenciais e com o escoamento das mercadorias nacionais sobrantes -as autoridades provinciais do Sul recebem-nos agora com mais compreensão e simpatia, se bem que cautelosamente a principio para não ofender Pequim.

Cerca de 1550, são abertamente reatadas as relações comerciais sino-portuguesas: os mandarins de Cantão autorizam-nos a estabelecer uma feitoria periódica e provisória para a realização de um mercado ou feira anual na ilha de Sanchuang (onde em 1552 morreu Francisco Xavier) no delta do Rio das Pérolas. Pouco depois, esta feitoria foi transferida para a ilha de Lampacao, a meio entre aquela e a futura Macau.
O ano de 1554 é de capital importância na história das relações luso-chinesas: após três anos de pacientes e habilidosas negociações o Capitão Leonel de Sousa, que se encontrava em Shanchuang à frente de uma frota de 17 velas, faz com que o Hai-Tau, ou governador provincial de Cantão, um “assentamento” que, pondo termo ao período de desconfianças e conflitos, lutas e violências, oficializa e regula as relações de paz e amizade, comércio e navegação entre Portugal e a China.

Remontam a este período (1550-1555) os nossos primeiros contactos com Macau-então modestíssima aldeia de pescadores, situada numa árida e rochosa península com o seu pequeno mas bem abrigado porto. Os Chineses chamavam-na de Ho-Keang, isto é, Baia do Espelho em forma de Concha, certamente em homenagem a à graciosa baía da Praia Grande ou, Ou-Mun-Porta da Baía do Espelho de água, e mais popularmente (sobretudo entre os mercadores, marinheiros e pescadores) A-MA-Kao, isto é, Porto da Deusa A-Ma, Rainha do Céu, padroeira dos mareante, que lhe erigiram um templo à entrada da barra, tendo sido esta a última designação, a perfilhada por nós.
Tudo leva a crer que foi a partir do primeiro Tratado Luso-Chinês, em tão boa hora negociado e assinado por Leonel de Sousa, que fomos autorizados a estabelecer uma feitoria livre e legal em Macau, passando os Portugueses a concentrar-se ali de 1555 a 1557, com o consequente abandono a Lampacao.
Em Macau, sentíamo-nos tão seguros «como se ela estivera situada na mais segura parte de Portugal», segundo testemunho coevo de Fernão Mendes Pinto confirmado pelo Frei Gaspar da Cruz que afirma que «desde o ano 54 a esta parte se fazem as fazendas na China muito quietamente e sem nenhum perigo».

Os documentos mais antigos que comprovam a nossa presença em Macau são de 1555.
Mendes Pinto faz datar uma carta de «Macuao,20 de Novembro de 1555», encontrando-se no texto a variante «Amaquao». O provincial jesuíta P.Belchior Nunes Barreto emprega a fórmula «deste Machoam porto da China, 23 de Novembro de 1555.»
É opinião geralmente aceite por historiadores, tanto antigos como modernos, nacionais e estrangeiros (incluindo chineses), baseada quer na tradição tão antiga como o próprio acto, corroborada pelo testemunho de fontes históricas coevas que a formal cessão de Macau aos Portugueses por parte das autoridades de provinciais de Cantão, se verifica em 1557, logo confirmada pelo imperador Chi-Tsung e ractificada pelo sucessor Mo-Tsung. O motivo imediato desta cessão, segundo a mesma tradição foi o de, acorrendo ao chamamento feito pelas ditas autoridades, ter-mos, duma forma eficaz e completa, limpo toda a região do delta de Cantão de terríveis bandos de piratas, nomeadamente o do famigerado Chan-Si-Lau: o nosso estabelecimento em Macau, mesmo às portas de Cantão, espantaria para longe e para sempre, os impunes e atrevidos malfeitores, permitindo assim uma vida mais sossegada e mais segura, não só à sobressaltada população de toda a região de Kuangtnung como também à pacífica e activa navegação costeira.

Contudo é-nos licito supor que esta atitude por parte das autoridades chinesas, de ceder Macau aos Portugueses para servir ao mesmo tempo de base de policiamento contra os piratas e porto e entreposto para a sua navegação ocupada em comércio legítimo, foi principalmente consequência duma evolução operada na política da própria China, que resolveu abandonar asfixiante autarquia económica em que vivia, para entrar na senda do comércio com o estrangeiro.
Tendo, por um lado reconhecido as evidentes vantagens, a necessidade até, do comercio externo, realizado pelos Portugueses, principalmente depois da abertura do trafego com o Japão, que dava à região de Cantão e à China prosperidade nunca outrora conhecida, motivada por avultadas vendas de seda e de outras mercadorias, generosamente pagas em ouro e prata, metais de que tinha grande carência; mas por outro lado, estando proibidos, sob pena de morte, por severos éditos imperiais, não só para saia da China, como ainda de comerciar com estrangeiros, em território chinês; e ainda, por um lado verificando que os Portugueses eram os principais, senão os únicos, intermediários capazes de efectivar esses comercio, pelo domínio que tinham, tanto dos transportes marítimos, como dos mercados de todo o Extremo-Oriente, nomeadamente o Japão; mas por outro sendo estrictamente vedado aos estrangeiros entrar na China- os mandarins da cidade procuraram um processo airoso e comodo para tornear todas estas dificuldades, através de uma solução que, sem quebra de respeito pelas ordens imperiais, lhes permitisse embarcar na politica do comercio externo, sem perder a face.

A solução mais decente, pratica e eficaz de criar, fomentar e proteger o seu próprio comércio externo, principalmente com o Japão dentro dos condicionalismos existente, sem ter de sair do país nem de facultar os seus portos aos estrangeiros e perigos, mas de forma a colher todas as enormes vantagens a ele inerentes, sem arcar com nenhumas das suas responsabilidades e trabalhos, e perigos estava na cessão aos Portugueses dum entreposto.   
Com a cessão de Macau, minúsculo e ignorado recanto do seu incomensurável território--os Chineses conseguem ao mesmo tempo num simples gesto: suprimir a pirataria; criar e proteger ao mesmo tempo o comércio externo, através dum local permanente e seguro, onde os seus mercadores pudessem efectuar as suas transacções sem infringir as rigorosas leis da Corte e armazenar os artigos recebidos das diversas regiões da China, para serem trocados com segurança e liberdade, efectiva e permanente, e não apenas durante a curta feira anual; e, o que é de suma importância evitar que os estrangeiros permanecessem em território chinês, interferindo com a sua vida e os seus costumes. E isto tudo, obedecendo rigorosamente à ordem imperial da proibição de saída do país!

Ao ceder-nos Macau, à entrada de Cantão, um dos mais importantes centros do seu comércio, a China transfere para ali todo o seu tráfego com o estrangeiro e faz dos Portugueses seus transportadores e agentes comerciais e lhes confia o monopólio das suas importações e exportações. E isto porque Portugal detinha o exclusivo das comunicações marítimas e do comércio, não só entre a Europa e todo o Oriente, como também das diversas regiões do Oriente entre si.
Foi assim que, após o estabelecimento de Macau em 1557, os Portugueses se transformaram de facto e de direito nos únicos intermediários e transportadores de todo o lucrativo comercio e trafego da China com o Japão, Manila, Sião, Malaca, India e Europa.

Em 1578 fomos autorizados a frequentar o mercado de Cantão.
Assistimos então a um extraordinário fenómeno: devido à estreita cooperação luso-chinesa, Macau, quase repentinamente, transforma-se, de modestíssima e obscura aldeia de pescadores, no mais importante e florescente entreposto em todo o Extremo-Oriente. Em 1586, a primitiva «Povoação ou Porto do nome e Deus de Amacao, na China» passa a chamar-se oficialmente «Cidade do Nome de Deus na China».

A.O.






terça-feira, 12 de setembro de 2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

JOSÉ MANUEL SARMENTO BEIRES

Foi brevetado no primeiro curso de pilotos da Escola Militar de Vila Nova da Rainha, tendo recebido o seu diploma de piloto em 10 de maio de 1917, numa sessão realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, em que também foram entregues os diplomas aos outros 12 primeiros pilotos militares portugueses que eram além deste, Olímpio Ferreira Chaves, Azeredo Vasconcelos,Sousa Gorgulho, João Luis de Moura, Luis Cunha e Almeida, António Cunha e Almeida, Miguel Paiva Simões, Pereira Gomes J., Rosário Gonçalves, Duvale Portugal, Aurélio Castro e Silva e José Joaquim Ramires.

Seguiu depois para França onde frequentou as escolas de Chartres, Chateauroux e Avord. 
Colocado no grupo de Esquadrilhas de Aviação República foi o primeiro português a realizar um voo nocturno. Tendo um espírito irrequieto e idealista, opôs-se ao Estado Novo sendo por isso demitido das Forças Armadas e forçado ao exílio.
Senhor de vários talentos, além de engenheiro militar foi também escritor e jornalista. Foi piloto do Cavaleiro Negro (, Tentativa de viagem à Madeira em 1920, tendo sobrevoado a ilha, mas não conseguido aterrar devido ao nevoeiro, tendo amarado de emergência por falta de combustível ) , do Pátria (Raid aéreo Lisboa-Macau em 1924) e do Argos (Primeira travessia aérea nocturna do Atlântico Sul em 1927). 
Na sequência da participação na tentativa de golpe militar contra o Estado Novo em Julho de 1928, para restaurar a democracia, é demitido da Aeronáutica e abandona o país, onde na clandestinidade continua a manter intensa actividade politica de oposição ao regime de Salazar. 
Entre 1929/30 esteve ao serviço do Governo francês como conselheiro aeronáutico em Hanói e em 1931 regressou clandestinamente a Portugal onde fez parte do grupo
organizador da tentativa de golpe de Agosto do mesmo ano. Em 1933 acaba por ser preso em Lisboa pela polícia politica e em 1934 foi condenado a sete anos de desterro e perda de todos os direitos cívicos durante 10 anos.
Depois de passagens por Espanha, França, Macau e Moçambique fixa-se no Brasil onde manteve uma intensa actividade de jornalista, escritor, tradutor e cronista de guerra em várias estações de rádio durante a Segunda Guerra
Mundial. Em 1951 foi amnistiado e reintegrado na reserva no posto de major passando à situação de reforma em Setembro de 1963. Em 14 de Agosto de 1972 foi promovido por distinção ao posto de coronel, tendo falecido no dia 8 de Junho de 1974 em Vila Nova de Gaia. 
Foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada a 30 de Janeiro de 1928 , de Grande-Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito a 3 de Fevereiro de 1928 e Comendador da Ordem do Império a 11 de Junho de 1964. Recebeu também as condecorações estrangeiras da Legião de Honra francesa e a Ordem do Rei do Cambodja (França).
Esta foi a história do homem que um dia escreveu “A Aeronáutica Militar tem uma missão histórica a cumprir”.



Colaboração de Madiba P. Moreira

terça-feira, 29 de agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

ÓSCAR MONTEIRO TORRES

Nasceu em Luanda a 26 de Março de 1889, tendo sido aluno do Colégio Militar e prosseguido os estudos na Escola Politécnica de Lisboa e na Escola do Exército, tornando-se oficial de Cavalaria em 1909. Partiu para Angola onde serviu sob o comando de Norton de Matos e depois regressou à metrópole. Partidário de uma intervenção portuguesa na frente europeia da Grande Guerra, em 1915 na sequência do Movimento das Espadas, ocorrido em Janeiro, de pendor oposto, exilou-se em Inglaterra oferecendo-se para combater nas tropas expedicionárias britânicas que estavam em França, tendo sido considerado desertor no nosso País. A deposição do general Pimenta de Castro, a 14 de Maio daquele ano, permitiu-lhe regressar a Portugal e sendo o novo Governo favorável a uma participação nacional mais activa na guerra, ajudou Norton de Matos, ministro da Guerra, a preparar a intervenção do Exército. Foi então que Monteiro Torres se ofereceu para integrar a aviação que se procurava constituir no nosso País, partindo novamente para Inglaterra, desta vez para tirar o curso de piloto. Depois da sua formação, que passou também por França, participou na organização da Escola de Aviação portuguesa, em Vila Nova da Rainha. Porém,como Portugal não recebeu de imediato os aviões, a ansiedade de voar e combater levaram Monteiro Torres a seguir para França e integrar uma esquadrilha deste país, pela qual combateu até ser abatido nos céus de Laon, a 20 de Novembro de 1917.

Colaboração de Madiba P. Moreira

terça-feira, 1 de agosto de 2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

quarta-feira, 5 de julho de 2017

AS RUÍNAS DE BRITEIROS

Panorâmica da Citânia de Briteiros visto pelo lado sul
As ruínas arqueológicas de Briteiros conhecida há mais de três séculos pelo nome de Citânia de Briteiros, são as de um grande povoado primitivo fortificado em oppidum, pertencentes ao tipo geral dos chamados castros do Noroeste da Península Ibérica, o qual nos apresenta vários traços da sua cultura celta.
Desde meados do século XVl que alguns escritores espanhóis e portugueses se referiram a Citânia, mas foi o Drº Francisco Martins Sarmento, celebre arqueólogo e etnólogo vimaranense quem, primeiro que ninguém se ocupou dela cientificamente.
As notáveis escavações ali realizadas pelo Drº Martins Sarmento em 1875, são hoje conhecidas no mundo científico pela celebridade que lhes deu a 1ª Conferencia Arqueológica Nacional efetuada em Guimarães, a 10 de Junho de 1877 e, mais tarde, a visita de alguns dos mais ilustres congressistas estrangeiros que então vieram a Portugal assistir lXª sessão do Congresso Internacional de Antropologia e de Arqueologia Pré-históricas, realizada em Lisboa em 1880.
A Citânia de Briteiros fica situada no monte de S.Romão, freguesia do Salvador de Briteiros, a uns 15 km de Guimarães.
Quem nunca percorreu semelhante ruínas, fica, ao chegar junto a elas, deveras impressionado com o espectáculo que se lhes oferece.
A zona em que as habitações são mais compactas, cercada pela primeira das muralhas que rodeiam a cidade, mede cerca de 250 metros de comprimento por 150 de largura. Esta zona contem mais de 150 restos de casas, umas circulares, no género céltico, outras rectangulares (como as do sul do país que denotam a influencia ibérica) e ainda outras oblongas.
Das ruas principais, empedradas, quase paralelas e medindo 2,5m de largura, o máximo cortam cidade em sentido longitudinal; outras menos importantes, vielas ainda mais estreitas, desembocando as vezes sobre pequenas praças ladrilhadas, dividem as ruínas em quarteirões diversos, onde as casas se agrupam, acompanhando o declive da encosta.
As habitações mais estranhas e as que mais se afastam do tipo usual que se vêm na Citânia são: uma casa redonda, contendo uns bancos de pedra no interior, em volta das paredes; uma outra casa, também circular com o excepcional diâmetro de quase 8 metros; e ainda uma outra com uma divisão central rectangular tendo, dos lados dois quartos circulares e contendo, além disso, diversos pequenos compartimentos anexos. 
É igualmente digna de atenção a caleira de pedra seguindo á margem de uma das duas ruas principais e que outrora, encaminhava a água de uma nascente, actualmente seca, até á fonte, pequeno reservatório de pedra de forma característica, absolutamente semelhante, posto que duas vezes milenário, aquelas que ainda hoje se encontram em muitas fontes modernas, através das aldeias e lugarejos da nossa província do Minho.

Quais seriam os povos que antigamente teriam ocupado este promontório escarpado o qual se ergue sobranceiro ao pitoresco rio Ave, cujo vale, hoje coberto abundantes lavouras e vinhedos, ficava nesses tempos remotos, escondido por vasta e umbrosas florestas?
Os modernos trabalhos antropológicos e etnológicos pouco nos esclarecem a este respeito e os antigos autores como Ptolomeu, Plínio e Méla falam-nos desta região, dos «callaeci bracari», dos «leuni» dos «seurbi» e dos «grovii», tribus secundárias dos celtici; mas de todos estes apelativos apenas se adquire uma breve informação de ordem geográfica que pouco ou nada nos dá a conhecer os caracteres étnicos desses povos Contentem-mo-nos, portanto, em dizer que, de modo genérico, os habitantes da Citânia pertenceriam ao grupo dos callaeci bracari. 

Quanto á cronologia destes habitats, é em geral fixado no apogeu da 2ª Idade do Ferro (500-300 A. C) teriam deixados de ser povoados pelos fins do seculo lll ou começo do lV, da nossa era, quando o domínio romano já, há muito, estabelecera uma paz duradoura e segura que não exigia mais a defesa e o asilo das montanhas.
Interessante o mobiliário abundante encontrado pelo Dr. Martins Sarmento, durante as escavações feitas tanto na Citânia como no Sabroso, outra povoação primitiva, situada no monte fronteiro a S.Romão e muito mais pequena do que a primeira mas, tanto ou mais importante do que ela pelas suas características gerais e natureza de espolio ali encontrado e exposto no Museu da Sociedade Martins Sarmento em Guimarães. Essa colecção de algumas series importantes e numerosas de peças isoladas
É impossível alongarmos a discrição dessas peças de tantos e variados, como em obras em cerâmica matais moedas, etc. 
Não se deve no entanto deixar de mencionar um dos mais interessantes exemplares arqueológicos, existentes no referido Museu e o mais conhecido de todos os monumentos de pedra que ali se encontram, proveniente dos dois notáveis castros, Citânia e Sabroso. E ele a Pedra de Briteiros, cuja primitiva aplicação ficou sempre ignorada, muito embora as opiniões dos vários entendidos concordem em se lhes atribuir um significado ritual- stela funerária ara de sacrifícios (sacra mensa) 
Tem forma hexagonal e os lados bastante irregulares, medindo 2, 90m de largura por 2,28m de comprimento e apena 0,24m de espessura. É lavrada numa das faces com grosseiros ornatos em relevo apresentando em bruto a face oposta.
Desde o começo do seculo XVlll, época em que os primeiros escritores se referiram a esta pedra, já então conhecida pelo nome de «formosa», que se v o grande interesse que o curioso monumento tem despertado mesmo a pessoas pouco versadas em arqueologia e isto será provavelmente devido, em primeiro lugar, á sua bizarra ornamentação e grandes proporções; e em segundo lugar, ao caracter desconhecido, misterioso, do seu primitivo uso.

Pode ser visitado virtualmente através de:
https://www.google.com/maps/place/Cit%C3%A2nia+de+Briteiros/@41.52639,-8.315278,2315m/data=!3m1!1e3!4m12!1m6!3m5!1s0xd24fb4e91e8c43f:0xe60931a50191355a!2sCit%C3%A2nia+de+Briteiros!8m2!3d41.52639!4d-8.315278!3m4!1s0xd24fb4e91e8c43f:0xe60931a50191355a!8m2!3d41.52639!4d-8.315278




O espólio arqueológico destas ruínas encontra-se exposto, em Guimarães, no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento
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Por: Aníbal de Oliveira

quarta-feira, 28 de junho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

ANTÓNIO DE SOUSA MAYA

Nasceu no Porto em Outubro de 1888, cursou o colégio Militar, aos dez anos com o nº. 186. 
Alistou-se como voluntário no Regimento de Cavalaria N.º 4, tendo sido incorporado no dia 29 de Outubro de 1905 e concluído o Curso de Cavalaria da Escola do Exército com uma classificação final de 13,9 valores.
Exercia as funções de ajudante de campo, do Ministro da Guerra General Norton de Matos, quando concorreu à Aviação Militar em Agosto de 1915, sendo dos pioneiros que seguiu para Inglaterra. 
No dia 2 de Fevereiro de 1916 embarcou para a Grã-Bretanha e Irlanda para iniciar a 7 de Março a instrução de piloto aviador na Escola de Aviação Civil «Ruffy & Baumamann», completando o seu curso a 3 de Junho de 1916, sendo-lhe conferido o respectivo «brevet» pela F.A.I. Em seguida frequentou a Royal Flying Corp School, alem dos aviões Caudron no qual se tinha iniciado, pilotou os Farman, Curtiss, Soppwitch e Martynsidetendo concluído a mesma a 7 de Junho de 1916 e prestado serviço na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial em missões de reconhecimento.

Entretanto em Vila Nova da Rainha abria a Escola de Aeronáutica Militar, o Tenente António Maya regressou a Portugal para exercer as funções desde instrutor do primeiro curso em Novembro de1916, terminado este e em virtude da organização do Corpo Expedicionário Português (CEP), António Maya ofereceu-se para combater em França integrado na Esquadrilha Inicial, Comandada pelo Capitão Norberto Guimarães, ingressou nas Escolas Militares de Avord e de seguida na de Pau. Tirou as especialidades de tiro aéreo em Cazaux e de voo noturno em Miramas ao Norte de Marselha. Desempenhou a seu pedido serviço na esquadrilha inglesa de observação (10º Esquadron) em Shoques perto de Béthune, em França, com variadíssimas missões de guerra. Apos estes estágios em Outubro de1917, deu entrada na Esquadrilha Spad Nº124 também conhecida por (Lafayette), que operava no Grupo franco-americano Nº13, com base em La Noblette. Voo em missões de guerra centenas de horas no espaço aéreo inimigo, foi galardoado com as Cruzes de Guerra portuguesas e francesas, e citações em Ordem de Campanha do Comando Aliado.
Foi entre outras condecorações agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Avis a 15 de Fevereiro de 1919, o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo a 29 de Março de 1919 e o grau de Comendador da Ordem Militar de Avis a 27 de Dezembro de 1927.
Foi ainda proposto pelo Ministro da Guerra, para o Grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, em 20 de Março de 1923, tendo no entanto sido esta proposta rejeitada, pelo Conselho da Ordem, em Maio de 1923.
Pioneiro da aviação em Portugal tendo atingido a patente de Brigadeiro-General no Exército Português.
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Há duas boinas características em Lisboa, a de Gago Coutinho e a de António Maya.
Ambas são inconfundíveis e cada uma tem forma própria. A do piloto António Maya ostenta a águia da aviação Polaca, pois é aviador honorário daquela nação.
Ao vê-los os lisboetas sabem muito bem quem eles são e têm sempre à sua passagem em comentário amigo e de admiração. Tornaram-se populares no admirável sentido do termo.
António Maya é hoje o piloto mais antigo da Aeronáutica Militar e quem o vê passar com aquele ar despreocupado que é timbre do homem do Ar não sabe em pormenor o que tem sido a sua intensa actividade de serviço aéreo desde aqueles tempos distantes em que em Inglaterra, com Óscar Monteiro Torres e Lello Portela, recebia instrução no Royal Flying Corps para obtenção do brevet de piloto aviador. Passava-se isto em 1916.
Logo no primeiro dia de instrução, numa daquelas manhãs cinzentas e Inglaterra, os pilotos portugueses receberam esta notícia: morreu hoje o melhor aluno da escola….
Belo começo, não haja dúvida.
Mas, o que podia causar apreensões a António Maya e aos seus companheiros?
Cavaleiro, instrutor de equitação do Colégio Militar, António Maya não se impressionou. A sua têmpera tantas vezes posta à prova era de “antes quebrar do que torcer”.
Cada um assinou um cheque em branco…..
E a instrução seguiu o seu curso. Primeiro na Escola Civil de Hendon, depois na Militar de Northolt.
Então para se conquistar o brevet exigiam-se provas em cinco aviões distintos, eram eles Caudron G.3, Farman, Avro, Curtiss e Be-C2.
Nesse dia antes de serem largados – primeiro António Maya – os três pilotos portugueses tomaram esta resolução: cada um assinou um cheque em branco para que pudesses levantar o dinheiro que tinham depositado….
Porém foi uma resolução em branco…
E com o seu diploma não mãos, António Maya, que valorosamente se distinguiu revelando altas qualidades de pilotagem, seguiu para França integrado numa esquadrilha inglesa em Dezembro de 1916.
Estávamos em plena guerra e os pilotos faziam muita falta. Rápida passagem pelas escolas de Aborde, Pau e Misamer para treino de alta acrobacia e voo noturno e ei-los depois em missões de guerra sulcando os céus de França sobre o território ocupado pelos alemães.
Vem daí a honrosa citação do Comando da 1ª Divisão Aérea do Exército Francês ao piloto aviador António Maya pela “bravura e entusiasmo revelados nas numerosas missões de patrulhamento sobre as linhas inimigas”.
Cruz de Guerra Francesa com Estrela de Prata
E daí também legitimo título de orgulho para um militar com é António Maya. O direito de usar a “Cruz de Guerra Francesa” com estrela de prata!
Eis uma passagem da sua valiosa ação como piloto de guerra que recordamos cheios de satisfação, como portugueses e amigos da aviação.
Depois de terminada a guerra o valoroso piloto regressou a Portugal.
Trabalhador infatigável foi o organizador e primeiro comandante do extinto Grupo de Esquadrilhas de Aviação da República (GEAR), numa hora difícil para a segurança das instituições, e ali pôs à prova todo o seu carinho pela aviação e todo o seu poder de iniciativa.
Nessa altura o comandante António Maya era um símbolo, o das boas intenções, o da camaradagem, brio e valentia, qualidades admiráveis que soube manter sempre como timbre do seu carácter.
O seu nome encheu colunas dos jornais da época.


Nesse tempo, estava ainda na Amadora, deu o maior “estoiro” da sua vida de aviador.
Descolou num Breguet com o saudoso Rodrigues Alves. Aos comandos António Maya e o companheiro como metralhador. Tratava-se de um exercício de tiro sobre um alvo no mar, perto dos areais da Caparica. Levavam como alvo uma enorme manga com bocados de cortiça que, a dado momento, seria lançada para a água.
Pois foi nesse momento….
A manga envolveu-se no avião e prendeu os comandos. O aparelho incidiu sobre a outra banda a pleno motor, o pé esquerdo a fundo…E os comandos a nada cediam…E a terra crescia, avolumava-se espantosamente.
O avião descreveu uma volta completa de “costas” e foi estatelar-se com as rodas para o ar a uns 15 metros de distância do ponto de embate!
Momentos de confrangedor silêncio….
Até que sumidamente a voz de Rodrigues Alves, a medo, não fosse responder-lhe o silêncio eloquente de uma grande tragédia:
-Ó comandante….
Porém o comandante respondeu-lhe. Que alívio!
Acorreu gente e os aviadores, de cabeça para baixo, lá foram retirados do avião e levados para casa dum pescador, onde almoçaram.
O pescador tinha uma filha, rapariga bonita que assistira ao desastre e tinha no olhar espantado toda a horrível visão da tragédia eminente.
Falaram com ela os aviadores, mas nada….Ela não respondia, com aquele ar meio aparvalhado.
E só quando terminou o almoço e os aviadores trataram de vir para Lisboa é que a rapariga, timidamente, quase que implorando, lhes disse apenas isto:
- Não tornem a andar naquilo, não?
Aquilo era o avião, todo despedaçado e para o qual ela apontava, transida de pavor.
Recordamos uma outra passagem pouco conhecida da atividade aeronáutica de António Maya.



Com Lello Portela meteu ombros à organização em 1919 do raide Paris – Lisboa.
Adquiriram-se em França dois Breguet com maior raio de ação dos que os de série e durante algum tempo os dois aviadores com os mecânicos Gouveia e Sousa executaram vários voos de treino tendo Paris como ponto de partida. Foram a Bordéus, Bruxelas e Haia. Aproveitando a realização dum certame aeronáutico em Haia tomaram parte num circuito que foi ganho por Fonk.
Na prova de treino Paris – Bruxelas António Maya estabeleceu o tempo recorde para a época de 1 hora e 38 minutos. Naquela época a mesma distância era percorrida em 2 horas.
O raide direto Paris – Lisboa foi inutilizado em consequência de duas avarias, uma em Casaux e outra próximo de Ávila.

Da Amadora o comandante António Maya transitou para Tancos. Durante muitos anos comandou o Grupo de Proteção e Combate. Depois foi colocado na Direção da Aeronáutica Militar como Inspetor e desempenhou interinamente as funções de Director.

Chamado para a frequência do Instituto de Altos Estudos Militares, concluiu com elevada classificação o curso de oficial general.

Hoje é o Brigadeiro Piloto Aviador António Maya.


In Revista do Ar por António Rosa (1946)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ALBERTO LELLO PORTELA

Nasceu na freguesia de Fontes, do concelho de Santa Marta de Penaguião, em 10 de Junho de 1893, tendo falecido em Setembro de 1949. 
Começou os estudos em Lamego e continuou os mesmos em Coimbra, onde ingressou na Escola de Guerra, seguindo a arma de Cavalaria, onde a dado momento optou pela aviação.
Foi para Inglaterra, com Óscar Monteiro Torres e António de Sousa Maya. 
Como alferes participou numa esquadrilha de observação inglesa e, depois disso, num grupo de caças francês, tendo feito mais de 80 horas de voo sobre as linhas inimigas. Em 1917 era já tenente e foi promovido por distinção a capitão , por feitos em campanha. Participou em 22 combates e obteve três retumbantes vitórias, a ponto de ser três vezes citado na Ordem do Exército francês e na do Grupo de Caças 21, onde prestava serviço. 
Foi quem fez o primeiro "raid" aéreo de Paris a Lisboa. 
Quando regressou a Portugal, tomou parte activa na política, tendo sido várias vezes deputado e após a revolução de 19 de Outubro assumiu o cargo de Governador Civil de Lisboa. Começou por apoiar o partido evolucionista e, posteriormente, passou se para o liberal, ao lado de António José de Almeida e de António Granjo. Era um republicano fervoroso e por isso se bateu fortemente contra os monárquicos, em Santarém, e contra os arruaceiros de Lisboa.
Como interveniente na Guerra de 1914 defendeu na imprensa da época as causas da revolução e escreveu, sob o pseudónimo, o livro "1918" que assinou como Heliófilo. 
Em 1922 voltou a França e tirou o curso do Estado-Maior na Escola de Guerra, de Paris, tendo sido condiscípulo e amigo íntimo de De Gaulle. 
Exerceu as funções de adido militar em França, durante oito anos e em 1937 aquando das manobras do Alentejo, comandou a Aeronáutica do Corpo do Exército. 
Em 21 de Julho de1937 foi promovido a Tenente-Coronel e, no ano seguinte, passou à reforma.
Além de aviador distinto era também um crítico e analista das questões militares, onde sobre estas escreveu, regularmente nos jornais "O Século" e "A Voz". Fundou o semanário "O Sol", onde juntamente com seu irmão, o Dr. Raúl Lello Portela, estudava os grandes problemas militares. 
Foi condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª Classe, Cruz de Guerra Francesa com três palmas, Legião de Honra, Medalha de Bons Serviços em Campanha.
Informação retirada do I Volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses da Editora Cidade Berço

Colaboração de Madiba P. Moreira 



Madiba P. Moreira

quarta-feira, 31 de maio de 2017

A ORIGEM DOS HOSPITAIS

                    
Como nasceram essas grandes metrópoles da dôr a que se chamam hospitais?
Pode dizer-se que os povos mais antigos lhes esboçaram a estrutura.
Na antiga Grécia, os Asclépion, templos do deus curador (Esculápio), serviam já para a recolha temporária de doentes.
À chegada ao templo, o doente começava o seu tratamento por um sacrifício de voto e um banho purificador. Depois fazia a cama no abaton ou no terraço a céu aberto e aí se prolongava, por vezes o seu internamento.
É de opinião generalizada e segundo as tradições orientais e as primeiras instituições bizantinas, que terá sido em redor de conventos que se estabeleceram os primeiros hospitais.Com efeito ninguém naquela época de lutas sangrentas teria a serenidade suficiente para realizar obra de assistência aos doentes e feridos; ninguém, salvo as ordens religiosas, possuía a garantia de que o respeito necessário e imposto aos homens de todas as facções originasse a possibilidade de manter em paz os doentes e assim proceder tranquilamente a cura.
A religião cobria com o seu manto venerado, a obra de misericórdia, e assim surgiram os asilos seguros, onde podiam repousar e convalescer os corpos combalidos e martirizados pelas guerras e pelas pestes, e encontrar aí o tratamento afectuoso que tanto precisavam.
Era natural que aqueles homens, a quem a visão das misérias humanas e das lutas fratricidas e a fé pura e profunda haviam impelido a abraçar as regras monásticas feitas de sacrifícios e renúncia, fossem os primeiros a contactar com os mais desfavorecidos, com os empestados e leprosos e a socorrer os feridos.
É assim que, no princípio das nações do Ocidente, se vê aparecer, a par dos estudos teológicos dos monges estudiosos, pequenos hospitais anexos aos conventos, o tesouro da antiga sabedoria, curando com a humildade, devoção, e carinho.
E tão insólito parecia, naqueles escuros e duros dias de violência e ignorância a obra generosa dos que apenas com o voto cristão, deixavam balizada a sua fé - ou até quem sabe o seu arrependimento de antigas faltas, construindo e mantendo, a sua custas, tais monumentos de caridade que ficou para sempre a eles apegada.
Assim sucedeu o primeiro hospital inglês, o de Bartolomeu o Grande, de Londres, fundado em 1123 pelo cavaleiro Rahere, no regresso dos combates da Cruzada e que ali se encontra sepultado, no silencio do seu mosteiro, hoje deserto, sob solene estátua.
Conta a lenda que, no ano de 293 A.C eclodiu em Roma uma grande epidemia, e foi enviada uma missão romana a pedir auxilio ao único local onde se podiam obter médicos competentes escola grega de Epidauro. A missão regressou, trazendo a bordo uma das serpentes sagradas usadas no Asclepeion grego; e mal o navio enfiou pelo Tibre acima, aquele emblema grego das artes de curar, rastejou silenciosamente pela borda fora, nadou para terra e aportou a ilha de S.Bartolomeu. A partir daquele momento, a peste abrandou e, no local onde a serpente tocou terra, foi mais tarde construído um hospital. Deste hospital veio, muitos anos depois, certo frade de nome Raheire, que viria a fundar em Londres o Hospital de S.Bartolomeu.E ainda hoje os turistas ali ouvem em silêncio e com atenção, a história contada pelos guias turísticos, atribuindo ao monge e guerreiro tal santidade que, por duas vezes no decurso dos séculos, num terrível incêndio e na destruição feroz de uma batalha aérea da ultima guerra mundial, que só aquele reduto, sem outra defesa além de vontade de Deus, ali ficou de pé.

Tipo de estabelecimentos assistenciais existentes em Portugal no Séc. XV
 Natureza e população-alvo

Albergarias 
Criadas originalmente para assistência aos peregrinos e demais viajantes, mas servindo também de albergue para doentes e mendigos, eram sustentadas sobretudo pelas ordens religiosas e militares, sendo algumas dotadas de pequenas enfermarias;

Desenvolveram-se com as peregrinações a Santiago de Compostela; muitas delas limitavam-se a oferecer uma simples refeição e uma enxerga aos viandantes;

Nalgumas terras, eram conhecidas como a "casa dos passantes".

Equivaliam às xenodochia dos bizantinos.
Hospitais (ou Espritais) 
"Feitos e ordenados principalmente para a cura e gasalhado dos pobres e enfermos";
No Séc. XII, o seu número era inferior ao das albergarias;
Equivaliam às nosocomia existentes em Bizâncio.

Gafarias     
Destinadas ao internamento dos gafos ou leprosos, são também designadas por leprosarias (e, mais tarde, lazaretos, termo que deriva do facto de a lepra ser então igualmente conhecida como o mal de S. Lázaro);
Já existiam no Império Romano do Oriente sob a designação de lobotrophia.
Mercearias  
Destinadas originalmente às pessoas da nobreza empobrecida ou envergonhada; em geral, funcionavam junto a capelas;
Em Bizâncio havia as gerontochia (estabelecimentos geriátricos), distintas dos simples hospícios, destinados aos pobres (ptochia).

 2. Hospícios
Pelo menos até 1498, ano da fundação da Misericórdia de Lisboa, não aparecem referências muito explícitas em relação à existência de estabelecimentos especificamente vocacionados para a assistência a prestar às crianças órfãs ou abandonadas (orphanotrophia e brephotrophia, entre os bizantinos, respectivamente).

Em todo o caso, há notícia em 1458 da fundação de um dos mais antigos recolhimentos de crianças, órfãos e enjeitados, o Hospital dos Meninos de Lisboa, por iniciativa da rainha D. Beatriz, primeira mulher do D. Afonso V cujo reinado vai de 1448 a 1481. Outra rainha, Santa Isabel, mulher de D. Dinis, havia já fundado em 1321 o Hospital de Meninos de Santarém.

Tradicionalmente, havia a roda onde as crianças enjeitadas eram abandonadas (daí o termo expostos). Primeiro, abandonadas nas igrejas e nos conventos, passaram, em Lisboa, a ficar a cargo do Hospital Real de Todos os Santos (HRTS), desde a sua criação até 1543, pelo menos.

Nesse ano, e por carta régia de 14 de Março, é recomendado à confraria da misericórdia de Lisboa que passasse a assumir explicitamente essa função. Mas em 1584 ainda existia (e continuaria a existir até ao terramoto de 1755) o criandário, ou hospício de crianças enjeitadas, distinto da albergaria ou casa dos pedintes andantes, ambos anexos ao Hospital

O número de meninos desamparados tenderá, entretanto, a aumentar com os Descobrimentos e o afluxo a Lisboa de "muitas e desvairadas gentes" bem como em consequência dos terríveis ciclos de crises cerealíferas, fomes e epidemias que devastam o país, nomeadamente desde de meados do Séc. XIV.

O problema das crianças abandonadas ter-se-á agravado no Século XVIII, a tal ponto que a Real Casa dos Expostos (sita, desde 1768, na antiga Casa Professa de São Roque, confiscada aos jesuítas) deixou de ter capacidade de resposta. A mesa da misericórdia de Lisboa ver-se-á assim obrigada a criar mais rodas nos arrabaldes da cidade (Ribeiro, 1902; Robalo, 1987).

Com o Antigo Regime — que vai grosso modo de 1620 a 1807 — , e na sequência das ideias filantrópicas do iluminismo bem como do imperativo de um maior controlo da déviance social, surgirão entretanto outras instituições como os orfanatos e os reformatórios de que a Casa Pia de Lisboa, fundada em 1780 pelo intendente Pina Manique, é talvez o exemplo mais paradigmático. Originalmente vocacionada para recolher mendigos, dedicar-se-á posteriormente ao acolhimento, educação e reinserção de jovens pobres ou sem família.

A Casa da Roda será formalmente instituída pela rainha D. Maria I, em 1783, em diversas vilas e cidades do reino com o intuito explícito de prevenir os infanticídios que na época eram uma prática frequente.

Novo tipo de instituição, o reformatório não será apenas um produto do "filantropismo iluminista" (Miguel, 1981). É também porventura — e salvo as devidas proporções e o contexto histórico — a versão portuguesa da workhouse inglesa e do hôpital génerale francês, criados no Séc. XVII para controlar as populações perigosas e recuperá-las como mão-de-obra disciplinada para as primeiras manufacturas que se sucedem à lenta desagregação do regime das corporações e que constituirão um passo fundamental no processo de desenvolvimento do capitalismo na Europa ocidental.

Quanto ao asilo, sucedâneo do hospício medieval, é sobretudo uma criação do Século XIX (tal como o manicómio, o sanatório e a maternidade), e a ele está indissociavelmente ligado o nome da rainha D. Maria I, de cognome a pia (1819-1853) que, por decreto de 6 de Julho de 1835, cria o Conselho Geral de Beneficência. A esta iniciativa seguir-se-ão uma série de medidas relativas à mendicidade, incluindo a criação de albergues nocturnos (Neto, 1981).
O manicómio é igualmente uma criação do liberalismo, na sequência das ideias progressistas da revolução francesa e da discriminalização da doença mental.
Tal como noutros países da Europa, e na esteira de homens como Ph. Pinel, surgem com o triunfo das ideias liberais as primeiras denúncias da condição infra-humana em que viviam os doentes mentais em Portugal ("doidos, lunáticos, alienados", como eram então rotulados).
De entre os médicos destaca-se, entre outros, o nome de C. Bizarro (1805-1860) que, desde 1835, vinha denunciando a cruel situação em que vivem os doentes, nomeadamente do sexo feminino, na Enfermaria de S. João de Deus do Hospital de S.José:
"Doidas nuas e desgrenhadas, entregues a todos os seus desvarios, gritando e gesticulando, encerradas às vezes num cubículo escuro e infecto onde mal podem obter um feixe de palha em que possam revolver-se; um local de todo apertadíssimo, com escassa luz, imprópria ventilação, e nele jazendo perto de 150 infelizes alienados com o diminuto número de três empregadas, que tantas são as destinadas ao seus serviço" (citado por Costa, 1986).
Só em  1848 (!) é que será criado, entre nós, o  primeiro "estabelecimento especializado" no internamento de doentes mentais: O manicómio de Rilhafolhes, em Lisboa.

Esta iniciativa pode concretizar-se graças ao legado de um benemérito. Entretanto, alguns anos depois, Rilhafolhes albergava já mais de meio milhar de doentes. Mais tarde, será seu director o médico Miguel Bombarda (1851-1910), o qual além de ampliar e modernizar o estabelecimento, lutou vigorosamente contra os métodos repressivos então em uso (v.g., o "babeiro de cola", a "coleira", o "berço-prisão", o "colete de forças"). Em 1948, o estabelecimento passou a chamar-se Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda.

Albergarias
Quanto às albergarias (tal como as gafarias), sabe-se que a sua existência é anterior à própria fundação da nacionalidade. Tenderão entretanto a desaparecer entre nós, embora mais lentamente do que no resto da Europa, a partir do fim da Idade Média, com o progressivo declínio das peregrinações (e, no caso das gafarias, com a irreversível regressão da lepra).

Grande parte das albergarias situavam-se junto a mosteiros e igrejas, povoações e estradas mais importantes, nomeadamente ao longo do caminho de Santiago, e em particular a norte do Mondego.

Às primeiras rainhas atribui-se igualmente a fundação de diversas albergarias, como, por exemplo, aquela que terá dado origem ao toponónimo Albergaria-a-Velha, criada em 1120 por Dona Teresa, mãe do primeiro rei de Portugal. Ou a de Chaves, mandada construir por D. Mafalda.
Os primeiros reis de Portugal também se preocuparam com a manutenção e a extensão da rede de albergarias — caso de D. Sancho I que no seu testamento de 1209 deixa legados, em dinheiro, a diversos estabelecimentos do género existentes no centro e norte do país.
Como diz o historiador Veríssimo Serrão (1990, vol. I. 221), "falta um mapa global para reconstituir esses marcos de cobertura viática, mas para certas ordens há elementos precisos. Assim, no que respeita aos mosteiros beneditinos que ficavam a norte do Mondego, possuíam albergues: uns, da invocação de Claraval, como Maceira Dão, Lamego, Sever e Tarouca; e outros, ligados à regra de Cister, como Moimenta, Tabosa, Arouca e Bouças".

Correia (1938) situa as principais albergarias sobretudo ao longo das antigas estradas romanas, tal como de resto uma boa parte dos outros estabelecimentos de beneficência. Na mesma localidade, podiam coexistir, aliás, diferentes tipos de estabelecimentos: Albergarias, Mercearias, Gafarias, Hospitais e Hospícios, para além dos Conventos. De qualquer modo, a sua concentração é sobretudo ao longo da rede viária romana ou de outras vias de comunicação utilizadas pelos peregrinos que, de França, Espanha e Portugal, demandavam Santiago de Compostela. Essa concentração era mais evidente em troços como:

Vila Real de Santo António/Mértola/Beja/Alcácer do Sal/Setúbal
 Beja/Évora/Estremoz/Arronches/Badajoz
 Lisboa/Santarém/Coimbra/Porto
 Porto/Braga/Santiago de Compostela
 Alcântara (Espanha)/Idanha-A-Nova/Guarda/Penafiel/Braga/Santiago

As peregrinações a Santiago de Compostela tiveram o seu auge nos Séculos XI e XII. Outras albergarias, a sul do Mondego e sobretudo do Tejo, como as de Lisboa, Setúbal, Alvito, Évora, Estremoz, Vila Viçosa, Portalegre, etc. estarão porventura mais ligadas à Reconquista e ao movimento dos cruzados.

Na época em que se iniciou a construção do Hospital Real de Todos os Santos (1492) existiam em Lisboa pelo menos treze albergarias, além de quatro gafarias e quarenta e três pequenos hospitais. Em todo o reino, existiriam 37 albergarias, 32 hospitais, 66 gafarias e 16 mercearias (Correia, 1938. 7).

Hospital de São João ( Porto)
Com o declínio das peregrinações, as primitivas albergarias tenderão a converter-se em (e a chamar-se) espritais ou hospitais  ou simultaneamente albergarias e hospitais (caso do Porto) para acolhimento de enfermos pobres (Basto, 1934).
Hospital Santa Maria (Lisboa)




                 














Por: Aníbal de Oliveira