sexta-feira, 5 de maio de 2017

VILA ROMANA DE PISÕES


Na estrada que liga Beja a Aljustrel, a cerca de 10 Km, na Herdade da Almagrassa, e bem próximo da aldeia de Penedo Gordo, encontramos um verdadeiro tesouro da época romana deixado em terras portuguesas. A Villa Romana de Pisões, assim chamada por se encontrar delimitada pelo barranco de Pisões, foi acidentalmente descoberta em 1967, tendo as investigações arqueológicas revelado tratar-se de uma importante exploração agrícola da época da ocupação romana que abastecia a região.
A Villa ocupa uma área de cerca de 30 mil metros quadrados numa zona plana, estendendo-se ligeiramente por uma suave encosta próxima de uma barragem que mantinha as termas e a piscina de outrora. Destaque para os bem conservados e coloridos mosaicos que representam cenas naturalistas ou composições geométricas, mono ou policromados, e que decoram o pavimento das mais importantes divisões da área residencial.  
As escavações arqueológicas e estudos efectuados nestas ruínas, confirmam que a villa terá sido ocupada entre os séculos I e IV d.C. A área residencial dos proprietários é o património que, até agora, maiores estudos sofreram. Seria uma habitação com mais de quarenta divisões com compartimentos essencialmente caracterizados pela sua riqueza decorativa. Estas divisões encontravam-se dispostas em torno de um pátio central descoberto, denominado peristilo. A fachada, que seria porticada, estaria virada a Sul, abrindo sobre um grande tanque ainda hoje bem conservado.

Tanques, piscina e termas de apreciáveis dimensões, existiriam igualmente nesta propriedade, em aproveitamento da proximidade da barragem de Pisões, constituindo mesmo, o edifício termal, um dos mais relevantes exemplares de termas privadas romanas encontrados em território português.
Todo o conjunto de mosaicos existentes nas ruínas romanas de Pisões é verdadeiramente assinalável, com peças de grande qualidade, composições geométricas e naturalistas, desde mosaicos monocromáticos até aos policromados.
Constituem a sua maior riqueza plástica, podendo admirar-se uma apreciável diversidade de painéis de diferentes períodos da história romana, destacando-se vários estilos decorativos e iconográficos. Um verdadeiro tesouro em terras lusas.
Dignos de destaque são, igualmente, o edifício termal, com a sua planta bem definida e o hipocausto (arcada para aquecimento) muito bem conservado, e o paredão de uma barragem romana, abastecida pelas águas da ribeira da Chaminé, situado a cerca de duzentos metros da villa, a qual teria como função constituir-se como uma reserva de água para o abastecimento da exploração agrícola e para a vida doméstica. 
Esta barragem foi construída em alvenaria de pedra e argamassa e possuía uma albufeira com cerca de 340 metros de comprimento, 31.300 metros quadrados de área inundada, armazenando um volume de água de 38.000 metros cúbicos.

Na época, davam-se as culturas da vinha, oliveira, produção de cereais e de gado, tal como ainda hoje, que abasteciam os mercados de Pax Julia (Beja), ou de outras cidades do Alentejo e Algarve, bem como do exército e de coutos mineiros, como Vipasca (Aljustrel) e Mina de S. Domingos.
A fachada principal da casa abria para um grande tanque exterior, para além do qual se situam também vestígios de mausoléus familiares, tendo sido, até ao momento, escavados três.
É possível observar-se a riqueza do proprietário e o gosto da época quer no revestimento dos pavimentos, com mosaicos e mármores, quer no das paredes, com pintura mural, da qual ainda se conservam alguns vestígios.
Nas escavações foram também recuperados alguns elementos que apontam para uma continuidade até à ocupação da Península Ibérica pelos muçulmanos.
Ao contrário do que acontece na maioria dos sítios romanos, onde não existem dados concretos sobre os seus habitantes, em Pisões foi encontrado um pequeno altar em mármore devotado a Salus, a deusa da felicidade e da saúde. Aí, encontra-se uma inscrição que revela que o altar foi dedicado pelo escravo Catulo, a Gaio Atílio Cordo.Assim, é possível que este nome corresponda àquele que era o proprietário da villa em determinado momento do século I d.C., sendo Catulo um dos seus escravos.
O mais conhecido monumento epigráfico de Pisões é uma árula votiva, dedicada à deusa Salus, com uma referência a Gaio Atílio Cordo que terá sido com grande probabilidade, proprietário da villa.
              Base de Prensa
No caminho de acesso à villa, próximo da barragem romana, ainda hoje é possível observar-se os vestígios dos pisões que terão dado o nome a este sítio arqueológico. Apesar de não se conhecer a cronologia deste engenho, é certo que muitos pisões só deixaram de estar em funcionamento ao longo da primeira metade do século XX.

Os balneários, com as diversas zonas diferenciadas consoante a temperatura (caldarium, tepidarium e frigidarium), são de arquitectura complexa e muito cuidada: salas cujo pavimento era feito sobre arcos e colunas (para terem aquecimento inferior), paredes duplas de tijolo (para aquecimento lateral pela passagem constante de ar quente), piscinas para banhos frios e para banhos quentes, e canalização principalmente de chumbo.

Por:





quinta-feira, 20 de abril de 2017

VILA ROMANA DE CUCUFATE


As ruínas romanas de Cucufate situam-se em Vila de Frades, no concelho da Vidigueira, no Baixo Alentejo. Estão datadas do século I d. C. e são consideradas como um centro de exploração agrícola.
Antes da romanização, alguns materiais encontrados nas escavações arqueológicas demonstram que este local foi anteriormente habitado por povos do Neolítico Final, entre os últimos séculos do quarto milénio e os primeiros séculos do terceiro milénio a. C., num contínuo aproveitamento da riqueza destes solos e da abundância de água. 
É durante a época romana que o local irá conhecer uma duradoura e marcante ocupação. Aí se instalou uma villa, isto é, uma exploração agrícola de grande dimensão, integrando a residência do proprietário, habitações para os seus criados e escravos, armazéns, celeiros, adegas e lagares, termas, jardim e um templo.
O proprietário residia nesta villa pelo menos durante parte do ano, e aqui, organizavam-se os trabalhos necessários à produção, armazenamento e transformação dos produtos da terra que lhe pertenciam.
A residência senhorial desta primeira instalação foi-se, progressivamente monumentalizando, tendo passado por duas grandes campanhas de obras. No século II é feita uma outra edificação, e em meados do século IV, acedeu-se a nova reestruturação que denuncia uma ruptura com o modelo arquitectónico seguido no decurso dos séculos anteriores. A tradicional casa romana, fechada sobre si mesma e centrada sobre um ou mais pátios interiores (“casa de peristilo”), substitui-se, então, por uma arquitectura de ostentação, aberta ao exterior, de desenvolvimento linear, em que as fachadas são valorizadas pela multiplicação dos vãos como elemento de ligação entre os espaços interiores e o exterior. São desta última fase os vestígios que, ainda hoje, testemunham a grandiosidade e opulência de uma época que se aproximava do seu fim. 
Próximo do local e na entrada na villa, na sua frente, surge um templo dedicado a divindades não identificadas, o Oratório, com características semelhantes às do templo das ruínas romanas de Milreu, em Estói, perto de Faro. Oratório, edificado em finais do século IV, já convertido ao culto cristão. Desconhece-se a divindade consagrada, mas sabe-se que os romanos inicialmente preferiram uma religião politeísta, e acabaram por aderir gradualmente ao cristianismo.
Esta Villa romana com planta em “U” aberto é constituída por dois pisos, sendo o piso superior a zona residencial. Integra-se no tipo das villa  céltico-romanas, comum nas Gálias, Germânia e Britânia. A villa romana supera em dimensões todas as Vilas romanas de Portugal. Os paralelos mais próximos são as Vilas romanas de Milreu, Pisões e do Rabaçal .

O fim do Império Romano, nos inícios do século V, não ditou, porém, o abandono definitivo deste sítio. Na parte térrea do edifício e, em data incerta nos inícios da  Idade Média, (talvez ainda na era visigótica), instalou-se um mosteiro consagrado a S. Cucufate.  A partir do século XIII, serão os frades Agostinhos de São Vicente de Fora a ocupar o local, e posteriormente, serviu de Convento à Ordem Militar de Santiago sendo abandonado no séc. XVI.
Com algumas descontinuidades, transformações e adaptações, a ocupação deste mesmo espaço prolongou-se até aos finais do século XVIII, tendo-se utilizado parte da casa romana como igreja, decorada em sucessivas épocas com pinturas murais.
Foi esse aproveitamento da habitação romana durante os séculos posteriores que, permitindo a sua manutenção e conservação parcial até aos nossos dias, faz de S. Cucufate um caso ímpar no conjunto dos sítios arqueológicos romanos de Portugal. 



 S. Cucufate, mártir cristão executado em 304 d.C. na actual Catalunha

Nascido em Scillium (província romana de Cartago) por volta de 270, pregou o cristianismo na Catalunha (onde é conhecido como Sant Cugat) na companhia de São Félix. Entre outras, esteve na cidade de Ampúrias, (perto de Gerona), até que o império romano o condenou à morte.
A lenda diz que primeiro lhe abriram o ventre e o evisceraram, mas que ele meteu de novo as vísceras dentro do abdómen que coseu com uma corda. Mais tarde, o imperador Galério condenou-o à fogueira, mas supostamente o sopro de Deus apagou as chamas. Depois, foi encerrado numa masmorra, mas os carcereiros converteram-se ao Cristianismo. Finalmente, a lenda diz que Deus permitiu a Cucufate - cujo desejo era aceder ao Paraíso pela via do martírio - que o degolassem.
Em seu nome foi chamada a localidade de Sant Cugat del Vallès (na província de Barcelona, Catalunha), onde se crê que foi executado, e o Mosteiro de São Cucufate na mesma localidade.
Seria já oriundo duma família nobre cristã. Contudo, o Cristianismo ainda não era tolerado pelo Império Romano. Só o será oficialmente a partir de 313 d. C. pelo Édito de Milão promulgado pelos Imperadores Constantino I e Licínio.
São Cucufate teria iniciado os seus estudos no campo das letras em Cesariense, cidade-região da Mauritânia, e aí terá supostamente encontrado o seu fiel companheiro - São Félix. Contudo,  São Cucufate teve, desde cedo, que enfrentar um período de ferozes perseguições aos cristãos. Diocleciano e Galério defendiam acerrimamente o culto pagão e, por isso, não estavam dispostos a aceitar a doutrina de Jesus Cristo. Por isso, é crível que a sua ida para a Península Ibérica tenha sido motivada por perseguições realizadas em África. Também São Félix o teria acompanhado alegadamente nesta nova aventura.
Mesmo assim, o ambiente de repressão não terá esfriado o espírito de devoção de São Cucufate e de, seu companheiro, São Félix (também com origens africanas) que pregaram o Cristianismo na Catalunha. De imediato, os dois pregadores esquecem as suas origens ricas e distribuem os seus bens pelos mais necessitados. Aceitam o seu novo estado de pobreza e humildade. Entram em casas particulares, professando a fé cristã e deixando de temer a morte. O seu impacto começa a ser registado. Contudo, as perseguições seriam também reatadas em Barcelona. Neste âmbito, foi detido e presente a um primeiro julgamento diante do Prefeito/Pro-Cônsul Galério, sendo um dos excertos desse episódio narrado nos volumes da España Sagrada:
Galério - Diz-me, louquíssimo rebelde, em que confias para atrever-te a desapreciar os mandatos dos Imperadores e negar o culto aos Supremos Deuses?
São Cucufate - A quem, ó muito idiota, mandais que se dê culto, sendo não deuses, mas sim invenções feitas por parte do engano diabólico e necessidades de outros semelhantes a ti?
Resposta esta que não agradou mesmo nada a Galério que ordenou a sua imediata tortura. Mas São Cucufate não pereceria, pois resistiu aos tormentos a que fora sujeito.
De acordo com as escrituras da España Sagrada, seria depois a vez de Maximiano, também Prefeito Romano ou Governador Local, interrogar São Cucufate. Mais uma vez, a discussão foi assim narrada pela fonte já citada:
Maximiano - A que Deus veneras?
São Cucufate - Como perguntas com esse modo duvidoso, como se houvesse muitos deuses. Não há mais do que um, a quem eu venero, que fez o Céu e a Terra.
Maximiano - Pois se esse é o verdadeiro deus, vamos ver se ele te livra dos tormentos.
São Cucufate - De ti, ó execrável e de teu pai, o Diabo, com todos os teus tormentos eu me rio pela virtude de Deus, pois verdadeiramente és muito demente e miserável, por
teres deixado a Deus e adorares caixa de demónios.  
Maximiano também não apreciou as respostas deste santo e ordenou novas torturas. Reza a lenda de que quando iria ser queimado vivo, o fogo apagou-se com o vento que se fazia sentir e tal foi encarado por muitos cristãos, como um sinal de Deus. De regresso à cela, São Cucufate teria convertido os guardas que estariam a vigiá-lo. Por isso, os grandes responsáveis pela perseguição ao Cristianismo tinham razões para invejar e odiar os feitos deste jovem que afinal teria uma idade a rondar apenas os 20 a 30 anos.
Todavia, a existência heroica de São Cucufate e São Félix teria uma data marcada para o seu fim. Daciano, o novo governador local, chega a Barcelona em Julho de 304 d. C. e impõe inúmeras perseguições (talvez seguindo as ordens imperiais), o que por seu turno, originou diversas execuções. São Cucufate que se destacava, não escapou à crueldade do novo governador e do seu oficial Rufino. Desta vez, eles queriam assegurar a sua morte imediata, já que a tortura não estava a assegurar quaisquer resultados.
De acordo com a Enciclopédia - España Sagrada, o nosso santo foi degolado junto ao Castro Octaviano, talvez localizado a oito milhas (12 km) de distância da cidade de Barcelona, ainda nesse mês de Julho de 304 d. C. Logo após a tolerância oficial de culto datada de 313 d. C., vários foram os crentes que se concentraram no local do seu martírio, prestando uma tremenda devoção. No início do século IX, é mesmo fundado o Mosteiro de Sant Cugat (assim é designado em catalão, o nosso São Cucufate) que ainda hoje pode ser visitado em Barcelona.
O seu fiel amigo São Félix seria executado dias mais tarde em Gerona, mas não seriam os únicos mártires canonizados a serem sacrificados pelo impiedoso Daciano.
Em Vila de Frades, o culto à personalidade de São Cucufate iniciou-se na Idade Média com a existência dum mosteiro beneditino, embora construído em data desconhecida (já no período visigótico), e ainda hoje, constitui um dos oragos da Freguesia. Existem mesmo pinturas murais/frescos em sua memória nalguns edifícios religiosos desta vila alentejana. O dia 25 de Julho, é o Dia de Cucufate, celebrado em Vila de Frades, ainda hoje. 





Por:


COMPLEXO ARQUEOLÓGICO DOS PERDIGÕES


Personagens terrenas ou divinas, representações ou entidades vivas, estas figurinhas introduzem pela primeira vez na arte Pré-Histórica um corpo humano fortemente subordinado ao naturalismo e relembram que o esquematismo vigente na época resulta inequivocamente uma opção estética e não de qualquer incapacidade técnica.    

O Complexo Arqueológico dos Perdigões tem mais de 16 hectares de superfície, datado do Neolítico Final e Calcolítico, ou seja, com uma idade compreendida entre os anos 3500 e 2000 a.C.

Enfim, é um importante conjunto pré-histórico com cerca de 5000 anos, constituído pelos vestígios de um santuário megalítico, incluindo diversos menires e um extenso povoado – incorporando um cemitério com imensas sepulturas.
Complexo ou, Núcleo, que se situa a 5km da Herdade do Esporão, e a 2 Km a Nordeste de R. de Monsaraz. É formado por fossos concêntricos escavados na rocha que culminam num centro geométrico, o Complexo Arqueológico dos Perdigões revelou uma necrópole e um recinto cerimonial megalítico.
Este importante local suscitou o interesse da comunidade científica internacional, tendo-se convertido numa referência para a investigação da pré-história europeia
De acordo com o arqueólogo António Varela, responsável pelas escavações, foi encontrado um importante conjunto de ídolos em marfim, numa área de acumulação de restos humanos cremados. Desse conjunto, destacam-se cerca de 20 estatuetas em marfim, datadas de meados do 3º milénio a.C., que terão à volta de 4.500 anos.
Esta descoberta, coloca assim, os Perdigões como o complexo arqueológico com a maior quantidade de objectos em marfim no contexto da pré-história portuguesa. 
Estas estatuetas normalmente representam características masculinas, de grande realismo e beleza estética. 
Os recintos dos Perdigões relacionam-se com o apogeu das primeiras sociedades camponesas europeias, que desenvolveram grandes e complexos povoados ou centros cerimoniais, que agregavam comunidades de vastos territórios.
Este conjunto pré-histórico compreende uma vasta área, e é composto por um extenso conjunto de recintos concêntricos delimitados por grandes fossos, escavados na terra e na rocha, por necrópoles (cemitérios) e um cromeleque de menires associados a recintos cerimoniais circulares, compostos por grandes blocos de pedra colocados ao alto. Construído por comunidades neolíticas e da idade do cobre, este sítio terá tido um grande simbolismo para as comunidades que habitavam aquela área, tendo sido utilizado para práticas funerárias, relacionadas com o culto dos mortos e dos antepassados. A vida no recinto dos perdigões estendeu-se por mais de 1.500 anos.
“Local de vida e de morte, o Complexo dos Perdigões nasceu e cresceu num anfiteatro natural aberto à paisagem do vale da Ribeira do Álamo e ao sol nascente num horizonte dominado por Monsaraz. Ali se congregaram pessoas, vindos de longe, trazendo consigo objectos e produtos. Ali se trabalhou arduamente no levantamento de menires e escavação de profundos fossos que delimitavam grandes espaços, criando trajectos e impondo perspectivas de grande significado. Ali se viveram quotidianos. Mas quotidianos particulares carregados de simbolismos e de cerimoniais que nos falam de um mundo distante do nosso. Um sítio onde a vida vivia a morte. Onde o tratamento concedido ao corpo humano obedecia a práticas que primeiro nos surpreenderam para, em seguida, nos interessarem. Um sítio repleto de sentidos que nos transporta para outras formas de estar no mundo, de o conceber e de o representar.”

Este espaço só pode ser verdadeiramente compreendido juntamente com a paisagem que o rodeia, revelando um excepcional conhecimento do território e uma planificação patente na clara intencionalidade da sua arquitectura. O Complexo Arqueológico dos Perdigões compreende diversos espaços, entre os quais uma necrópole, e, já no seu exterior, um recinto cerimonial megalítico. Espaço de socialização ligado ao sagrado e não apenas um espaço de vivência quotidiana.
Os Perdigões foram implantados num anfiteatro natural aberto a Este, ao sol nascente no horizonte de Monsaraz, para onde toda a visibilidade é dirigida pela condicionante topográfica. Ao longo do tempo os seus recintos foram construídos tendo a preocupação de orientar entradas ao nascer do Sol nos Solstícios de Verão e de Inverno. Trata-se de uma Arquitectura de fundamento astronómico, que incorpora e expressa aspectos centrais nas visões do mundo de que a construiu e vivenciou.


Solstício de Verão no Complexo Arqueológico dos Perdigões

O Complexo dos Perdigões possui diversos espaços, entre os quais uma necrópole, e, já no seu exterior, um recinto cerimonial megalítico. O impacto exercido pelos Perdigões no território e, particularmente, sobre o restante povoamento da ribeira do Álamo, indica-nos que este poderá ter sido sobretudo um espaço de socialização ligado ao sagrado e não apenas um espaço de vivência quotidiana.
Local de vida e de morte, o Complexo nasceu e cresceu num anfiteatro natural aberto à paisagem do vale da Ribeira do Álamo e ao sol nascente, num horizonte dominado por Monsaraz.

O ciclo solar ganha ainda maior relevância para as comunidades pré-históricas quando estas se tornam progressivamente mais dependentes do ciclo agrícola. Base para a medição cíclica do tempo (como o seria também a Lua), o nascer e pôr-do-Sol é também metáfora para a vida e a morte, para o nascimento e desaparecimento, para o perpétuo renascimento, para o eterno retorno.
Nascente foi assim sempre uma orientação significante para as comunidades neolíticas, que para esse quadrante cardeal orientaram os seus monumentos megalíticos funerários, os seus cromeleques e outras construções, como alguns recintos de fossos. Alguns destes, mais do que simplesmente expostos a Nascente, marcaram com as suas arquitecturas momentos importantes dos calendários solares, como são os solstícios e os equinócios.
É o caso dos recintos exteriores dos Perdigões, cujas entradas estão orientadas aos solstícios de Verão e de Inverno, ao nascer do sol. Os primeiros raios da manhã penetrariam assim no local por estas entradas, no dia mais longo e no dia mais curto do ano, alturas em que possivelmente estes dias já seriam assinalados com momentos de festa ritualizada, agregando pessoas da região e de fora dela.
Há mais de 5 mil anos, os Perdigões eram um importante santuário para onde convergiam populações vindas de várias regiões, para aí realizar rituais ligados à morte, ao culto dos antepassados e ao mundo simbólico. Foi encontrado ainda um local de deposição de crânios humanos, alguns deles com sinais de que foram queimados. 
Pelos achados de cerâmica não campaniforme, detectou-se contacto com o Sul de Portugal, Estremadura Espanhola e Andaluzia Ocidental. Nos achados de conchas marinhas, o contacto com povos do mar.


Por:

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ÉVORA / BEJA

ÉVORALIBERALITAS JULIA EBORA

Cão com barrete árabe – Catedral de Évora

BEJAPAX AUGUSTA 


Lenda de Beja

 Conta a lenda que quando a cidade de Beja era uma pequena localidade de cabanas rodeada de um compacto matagal, uma serpente assassina era o maior problema da população. A solução para este dilema passou por assassinar a serpente, feito alcançado deixando um touro envenenado na floresta onde habitava a serpente. É devido a esta lenda que existe um touro representado no brasão da cidade.

Núcleo Museológico na Rua de Sembrano

A escavação da Rua do Sembrano pôs a descoberto vestígios que se estendem, cronologicamente, desde a Pré-História até à Época Contemporânea. Os mais antigos apontam para a Idade do Cobre ou Período Calcolítico, no 3º. Milénio a.C. É porém, da Idade do Ferro, na segunda metade do 1º. Milénio a.C., o conjunto mais importante de elementos recuperados. Do período da Idade do Ferro, foi identificado um troço de uma robusta muralha de construção em pedra com argila, que delimitava o perímetro do povoado antigo, e no seu interior, dois compartimentos definidos por muros, com pavimentos de argila e caliço moídos e com pequenas estruturas de sustentação associadas (buracos de postes), que corresponderão a parte da zona habitacional.
Designada Pax Julia por Ptolomeu, Pax Augusta por Estrabão e colónia pacensis por Plínio, Beja, na Época Romana, uma cidade importante, sendo capital de um dos três conventos juridicus – circunscrição territorial jurídico-administrativa – existentes no actual território português. A Beja romana estende-se no tempo desde o século I a.C. ao século IV d.C.

Museu Rainha D. Leonor



O lamento de Mariana Alcoforado percorre ainda hoje as paredes caiadas do convento de Clarissas de Beja onde entrou aos onze anos e onde morreu aos 83, corria o ano de 1723. Uma vida longa, preenchida pelo amor ao cavaleiro francês Noel Bouton, Marquês de Chamilly, que a freira imortalizou em cartas de uma paixão não correspondida. A janela por onde tantas vezes Mariana viu passar o seu amor é um ex-libris do que é agora O Museu Regional. 

Mariana Mendes da Costa Alcoforado ou Mariana Vaz Alcoforado, nasceu em 22 de Abril de 1640 e faleceu em 28 de Julho de 1723. Foi uma freira portuguesa do Convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja.
É considerada a autora das cinco Lettres Portugaises (As Cartas Portuguesas) dirigidas ao Marquês Noel Bouton de Chamilly, Conde de Saint-Léger e oficial francês, que lutou em solo português sob as ordens de Frederico de Schomberg, durante a Guerra da Restauração. A sua obra Cartas Portuguesas tornou-se num famoso clássico da literatura mundial.
Era irmã de Francisco da Cunha Alcoforado e filha doutro Francisco da Cunha Alcoforado, dos Cortiços, em Macedo de Cavaleiros, Cavaleiro da Ordem de Cristo a 15 de Dezembro de 1647, e de sua mulher Leonor Mendes.
Já no testamento materno Mariana fora nomeada monja do Convento da Conceição. Sem nenhuma inclinação mística, ela estava, pois, destinada à vida religiosa, sorte idêntica à de muitos homens e moças da época, encerrados em mosteiros por mera decisão paterna.
Os amores com o Marquês de Chamilly, a quem vira pela primeira vez do terraço do convento, de onde assistia às manobras do exército, deve ter ocorrido entre 1667 e 1668. Sóror Mariana pertencia à poderosa família dos Alcoforados, e o escândalo provavelmente se alastrou. Temeroso das consequências, Chamilly saiu de Portugal, pretextando a enfermidade de um irmão. Prometera mandar buscá-la. Na sua espera, em vão, escreveu as referidas cartas, que contam uma história sempre igual: esperança no início, seguida de incerteza e, por fim, a convicção do abandono. Esses relatos emocionados fizeram vibrar a nobreza de França, habituada ao convencionalismo. Além disso, levaram, para a frívola sociedade, o gosto acre do pecado e da dor, pois, ao virem a lume, divulgaram a informação de que as compusera uma freira.
Pelas boas obras e pelos sacrifícios com o tempo se reabilitou, Sóror Mariana Alcoforado chegou à posição de abadessa do referido Convento franciscano e morreu já idosa, aos oitenta e três anos de idade. 
O Museu conserva ainda a grande janela gradeada, mais conhecida como a Janela de Mértola, das Portas de Mértola ou de Mariana, verdadeiro ex-libris do convento, do museu e da cidade, através da qual a religiosa viu tantas vezes passar aquele que a encantava e que num dia especial a destacou com o seu olhar e lhe fez sentir os primeiros efeitos da sua infeliz paixão.

Por: